segunda-feira, agosto 31, 2009

RIP

Trouxe um dia, a este espaço egoista onde me movo, aquilo que achei ser uma homenagem ao teu amor. Repito-a hoje porque sei, cada vez com maior realidade, que quando os nossos amores morrem há livros que nunca mais se abrirão.

Tu és agora um livro para sempre fechado, uma gargalhada que apenas revisitarei em sonhos. O espaço que desocupaste no mundo, nas nossas vidas, na minha vida é enorme. A piada que faremos a seguir, meu amor, só nós conhecemos.

Eras um valente, um sábio, um generoso amigo mas isso todos sabem. Para mim continuas a ser, essencialmente, um tipo muito bem educado. Sei que me entenderás.

Perdoa a minha ausência no teu momento mais humano.

"Sábado, Janeiro 07, 2006
dos gelados, dos perfumes e dos locais onde não iremos mais...
Uma homenagem a duas pessoas que não sabiam onde acabava um e começava o outro..."


Limites

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este Verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

De Inscriptiones (Montevideu, 1923)
de Julio Platero Haedo
in Poemas Escolhidos de Jorge Luís Borges


João Antunes, Março de 1963 - 31 de Agosto de 2009

sábado, agosto 01, 2009

Açores

Estive nos Açores para testemunhar os 50 anos de casamento de um casal da ilustre comunidade faialense.
Fernando Melo*, no seu discurso, disse: "Quero agradecer-vos o favor de serem meus amigos" e explicou "a amizade é um favor que nos prestam e que eu tento retribuir".

Eu também.









* Foi Professor da Escola do Magistério da Horta, onde se formou em 1952. Desempenhou funções de coordenação educativa (na Junta Governativa em 1976, na Telescola, no Centro de Apoio Tecnológico e outras). Desenvolveu uma vasta actividade redactorial, na Terceira (DiárioInsular) e no Faial (Telégrafo, Correio da Horta e Tribuna das Ilhas), colaborando também com outros jornais açorianos, do continente e das comunidades portuguesas nos EUA. Destaque articular merece a colaboração em várias estações de rádio mas, em especial, na RTP-Açores, de que foi o primeiro jornalista correspondente no Faial. Autor de muitos programas televisivos incidindo em trabalhos de pesquisa histórica sobre os Açores, as suas gentes e as suas circunstâncias.
Expressiva é também a actividade literária, do comentário à crónica, da poesia ao ensaio. Publicou os livros «Fragmentos de Memória» (1993) e a «A Prenda de Natal… e outras histórias» (2003).
Fernando Melo é natural de S. João do Pico (4/10/1932).

sexta-feira, junho 26, 2009

alter estórias

video

para mais objectos, em breve, clicar aqui

domingo, junho 21, 2009

Sentenças/Sentences (7ª)

a atracção pela infelicidade é uma coisa que eu tenho dificuldade em compreender

quarta-feira, junho 17, 2009

fui criada para aceitar a morte. aceitar é a palavra certa. o quarto dele foi desmontado antes que chegassem a a casa.
não fui criada para aceitar a ausência. quem é vivo está sempre presente.

terça-feira, junho 16, 2009

Mantra

Repetir 25 vezes antes de sair de casa, inspirando lentamente.

as pessoas não têm de corresponder às nossas expectativas.
não há qualquer lei cósmica que obrigue os outros a agir de acordo com os nossos desejos.

Ao chegar, exausta, redizer esta fórmula até que se desate o nó na garganta.

domingo, junho 14, 2009

return, repeat, regret

Tento discernir se o tédio lento que me invade o corpo tem qualquer coisa de épico ou se é apenas banal. Se o modo com o meu corpo se adapta à contrariedade tem qualquer coisa de vaga movendo-se de acordo com os caprichos da lua ou é apenas putrefacto cadáver sacudido pela rebentação.

Disperso-me em significados e significações mas não há neste movimento esforço. A intencionalidade, já sabemos, é fonte de mágoa e esse é um luxo a que não me quero permitir mais.

Por isso, suavemente, atravesso um tempo em que os astros não alternam, o céu mantém-se para sempre cinzento, as estações são agora um único e final apeadeiro.

O caricato é que, grandioso ou não, já todos conhecemos o meu melhor olhar.

sábado, junho 13, 2009

azáfama

fodiam como os cachorros brincam. havia um afã qualquer naquela actividade que ia para além do lógico e do seu próprio propósito. cansavam-se mais do que o necessário e o prazer era sempre menos do que esperavam. não deixavam por isso de foder e a vontade aumentava na proporção em que o faziam: como se esperassem que aquela dentada derrubasse, por fim, o adversário.

sábado, junho 06, 2009

período de nojo

não tomo banho há 34 dias.
não escovo os dentes há exactamente 72.
não corto as unhas há 182 dias e observo o seu crescimento encaracolado no sentido da carne com uma espécie de orgulho doloroso.
não escovo o cabelo desde o primeiro dia do ano.

Fumo e cotão alojam-se nos longos tubos engrenhados e, agora que os corto, libertam-se numa nuvem poeirenta. Depois de todos os nós de cabelo terem caido por terra, afio uma faca e raspo o crânio. Corto-me e observo ao espelho o sangue espastar o sarro que se acumula no pescoço e nas clavículas.

Pondero correr para a rua nua e deixar a chuva desenhar-me no corpo sulcos enquanto uma poça lamacenta se forma a meus pés.

domingo, maio 31, 2009

gravidade

e se eu tivesse os tornozelos muito inchados? e se eu tivesse o andar de um patinho desajeitado? amar-me-ias?

o engraçado é que tenho a certeza que sim.

sexta-feira, maio 29, 2009

Sentenças/Sentences (6ª)

o desamor perdoo-te, do amor me perdoo.
para a ignomínia da indiferença, não encontro perdão.

quinta-feira, maio 28, 2009

chemical hangover

Ordena-me: a menina leia isto que aqui está escrito se faz favor e confirma com voz de quem afirma, esta é a sua letra, não é?. Não existe outra hipótese senão repetir as palavras que escrevi, (sim é a minha caligrafia), e não recordo ter escrito. Apenas reconheço que o fiz porque me dói a cada sílaba. E não sei se me fere mais a ordem, se a leitura, se o teu olhar atento, aflito e cobarde enquanto me ouves despir o meu amor por ti: infeliz e sem retorno na margem de um papel. Uma folha recortada, anotada e velha onde, a lápis, perdida entre outras glosas, consta a confissão.

***

Entre a mutação e a fuga [de bicicleta ou conduzindo uma carrinha de porta lateral deslizante?].
Entre uma muito nocturna Rua dos Clérigos e um deprimido espaço comercial.
Entre a chuva que molha a celebração e o caos do último dia.

Sobrevivi a uma noite inteira de tarefas que realizo com náusea.
Debati-me com informações contraditórias.
Cumpri os meus últimos desejos.

Silvio Rodriguez - Mi Unicórnio Azul

Silvio Rodriguez - Mi Unicórnio Azul

clicar no link acima

A música que devia ser possível ouvir (e pelo menos no meu computador não é) na barra lateral. Espero assim conseguir partilhá-la.

terça-feira, maio 26, 2009

Sentenças/Sentences (5ª)

Tu não precisas saber, eu é que preciso dizer-te.

sexta-feira, maio 22, 2009

Voyer II

Quando se deu conta da sua presença, ela estava a meia dúzia de passos da porta. O sol tornava o dia invulgarmente quente. Deixou-se estar no seu local mas o seu primeiro impulso foi correr em seu auxílio tomando-lhe dos braços vários dos volumes que transportava.

Não o fez. Se o fizesse deixaria de fazer sentido observá-la.

Não deixava, no entanto, de se surpreender com aquela capacidade absurda que ela demonstrava de trazer e levar. Carregar, transportar. As coisas que muda de sítio são sempre diferentes: caixas, sacos, papéis, canudos, tecidos, máquinas e livros. Ele tentava muitas vezes deslindar o significado daquelas idas e vindas. Ao fim de algum tempo começava a ser possível adivinhar onde ia, de onde vinha e podia até seguir o fio dos seus dias ou de uma ou outra coisa que a ela se dedicava naquele momento. Outras vezes era pura e simplesmente impossível entender o que aquele leva e trás esconde ou revela.

Naquele dia debatia-se, uma vez mais, com aquela bolsa de cor indefinida cujo tom se aproxima bastante dos sacos de plástico da Mariazinha. Procurava as chaves enquanto equilibrava na anca uma belíssima caixa de madeira daquelas que imaginamos a viajar em cargueiros. Esboçou um pequeno esgar de dor quando se rendeu à carteira e se baixou para pousar a caixa. Suspirou.

A carteira finalmente aberta em cima da caixa. Ele percorreu então os seus gestos demorados para encontrar o molho metálico que procurava e continuou olhando o suor que lhe preenchia o lábio superior, lhe molhava a t-shirt debaixo dos braços e numa fina linha abaixo do peito. Parecia aliviada pela pausa e por isso este procedimento levou muito mais tempo do que seria necessário.

Tal qual uma mula de infinita paciência, escolheu então o ombro para a carteira, mudou a caixa para o outro lado da anca e equilibrou-lhe aquilo que, aquela distância, parecia um molho razoável de fotocópias. Abriu finalmente a porta, que entreabriu primeiro com o pé e terminou de empurrar com as costas, rodando sobre si própria. Foi nesse segundo em que, com a cara húmida e brilhante pelo o sol, ela se virou novamente para a rua, ele lhe vislumbrou o olhar. Teve então a sensação, pela primeira vez, que os olhos vermelhos dela atravessaram os seus.

(cont.)

segunda-feira, maio 18, 2009

hoje um espírito negro pairava sobre as pessoas. sorri-lhes e falei-lhes esperando retorno.
como ele não aconteceu, pirei-me.

sábado, maio 16, 2009

Beat this!!


Esta foi a minha primeira prenda! A fasquia está alta...


this baby girl is turning thirty today


quinta-feira, maio 14, 2009

spoiled birthday girl

Pronto. Todos me têm perguntado quais são os meus sonhos e desejos. Sim, para o meu aniversário. E a todos tenho dito "vá não sejas tonto/a! o que eu quero é que estejas presente.".

A verdade verdadinha é que prenda que eu quero imigrou da Itália para o Vietnam, e agora está como nova! Para conhece-la melhor basta clicar aqui.
Peçam um embrulho bem bonito e eu vou buscá-la ao Porto de Leixões. Thanks!

domingo, maio 10, 2009

Olivier

(Olivier Besancenot)
De amoroso sorriso desancou no capitalismo como há muito já não ouvia.

sábado, maio 09, 2009

Voyer I

Sentava-se à sua porta. Nem sempre o fazia, mas desde que descobrira onde vivia fazia-o cada vez mais frequentemente. Não sabia explicar porque desenvolvera esse hábito, mas já descobrira o local onde poderia vê-la alcançar o puxador da porta, abri-la, dar aquele pequeno salto para o passeio e deixa-la bater atrás de si. Já tinha visto este momento demasiadas vezes para ignorar que a porta nem sempre fica fechada no trinco, por vezes fica só encostada, mas ao contrário da maior parte dos seus vizinhos ela nunca se volta para trás para certificar-se disso. Nessa altura estava já completamente convencido de que ela não podia importar-se menos com a possibilidade de alguém entrar no prédio.

Do local onde se instalara podia ainda notar como a imagem dela se reflecte na montra do café, da tabacaria, da frutaria, do bazar, da loja de velharias que está sempre fechada, do talho que fechou de vez, da churrasqueira, do minimercado, da tabacaria e depois disso perde-a de vista. Sabe que no café ela verifica o cabelo preso e a curva da nuca, no talho escuro a forma como as calças lhe assentam, depois perde-se nos títulos dos jornais e compara as parangonas das revistas para de seguida desaparecer realmente dos seus olhos. Vê-a ainda por vezes se optar por atravessar a rua, mas nessa altura já está em modo de andamento automático e na verdade já não é ela, é o invólucro dela.

Hoje saiu cedo, ar fresco, mas o prenúncio era de um dia bom. Leva um casaco leve porque certamente já o prevê. Ele já estava lá. Não se tinha ainda instalado, dirigia-se apenas para lá. Agradeceu o facto de ainda a ter apanhado a sair, de outra forma ficaria convencido que dormiria até tarde.

(cont.)

Sentenças/Sentences (4ª)

Há coisas que são de um mau gosto tal, que chega a ser ofensivo. Uma delas é a falta de educação.

Política

Amanhã vou escrever um bocadinho sobre política pela primeira vez neste blog.
Ah! Desculpem... na verdade... tenho estado sempre a fazer política.

sexta-feira, maio 08, 2009

vieram as chuvas e tu permaneceste

o teu crânio bilhante e húmido

veio a seca e tu quedaste-te imóvel com os pés gretados

acordo e tu escutas a noite em meu redor
caminho e tu caminhas em silêncio a meu lado

domingo, maio 03, 2009

Labirinto ou não foi nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão Ferreira
À Guitarra e à Viola(1954-1960)
Obra Poética1948-1988
4.º Edição
Editorial Presença

sexta-feira, maio 01, 2009

back to life

Outra vez. Tu vivo. Todos sabem. Moras mesmo em frente. Tens uma casa grande, gordurosa, onde todos jantam. Já nem tenho a certeza de que gostas de mim. Tenho que lutar contra todos os teus outros afazeres. Queres castigar-me e todo este processo de me deixa exausta.

Volta, por favor, calmamente aos meus sonhos.

quarta-feira, abril 29, 2009

entre a sombra e o corpo

(1) Foto de Ana Conde
Final da tarde em Salamanca


O livro "entre a sombra e o corpo", publicado em 1980 por David Mourão Ferreira, contém 30 poemas de três linhas que o autor previne no prefácio não serem haicai por não terem a métrica 5-7-5 mas sim 6-6-3. Mais a adiante escreve o autor: "(o leitor..) dirá ainda se estes falsos haicai lhe parecem ou não verdadeira poesia. Para mim constituiram eles, sobretudo, o apaixonante ensejo de tentar dizer, do modo mais condensado - e com possibilidades de mais de uma leitura - muito do que há muito, ou desde sempre, me venho esforçando por exprimir".

A tal pessoa que respeito falou-nos neste... É engraçado como quando conhecemos uma coisa nova, ela passa a surgir-nos tão frequentemente.

Ao meio-dia em ponto
entre a sombra e o corpo
o encontro

Noção das conveniências...

Se bem me recordo, acho que ontem disse, num local formal, a uma pessoa que respeito, que as bolas de espelhos só serviam para potenciar o efeito dos ácidos. Basta a repetição destas palavras para me provocar, entre o diafragma e a traqueia, aquele sacudir próprio do riso incontrolável. O sorriso amarelo de incompreensão que se seguiu a esta frase, foi quase tão hilariante como a minha alucinação momentânea. Devo mesmo estar a perder a noção das conveniências...

terça-feira, abril 28, 2009

Tenho andado de sobrolho franzido, de semblante sombrio, até as promessas me cansam e cada sorriso é um esforço. As conversas maçam-me e os outros matam-me de tédio.

Há palavras que não me atrevo a dizer em voz alta, relatos que não faço, conclusões que não tiro e, ai de quem me obrigue a pensar.

Haja forma de vomitar o mundo: faço-o sem hesitar.

segunda-feira, abril 27, 2009

Épico

Isto está mesmo bem feito!



E agora para algo completamente fútil: Se alguém quiser costurar um vestidinho daqueles para mim, vou ser muito feliz, embora me pareça que não vá ficar tão distinta... acho que o estilo será mais prostituta vitoriana... nada contra.

piscina egoísta

a tristeza é como a água.
o corpo estranha a temperatura. surpreende-se. freme enquanto a água corre fria. quente.
depois a água toma a nossa forma, preenche-nos. submergimos. está escuro, a água é negra. e forma-se um silêncio no espaço que antes era ar.
a água invade-nos, toma o nosso calor, entra-nos pelo nariz, pela boca, força o seu caminho até aos pulmões. entra pelos ouvidos que estalam até emudecer. por todos os poros da superfície inteira da pele. instala-se entre ela e o músculo. habita onde antes eras tu.

quinta-feira, abril 23, 2009

Sentenças/Sentences (3ª)

o amor é único sentimento discricionário que me permito.

quarta-feira, abril 22, 2009

terça-feira, abril 21, 2009

the healing power of music

hoje o post era para ser sexo, violência e morte, mas estou a ouvir o vitor espadinha e o eterno "recordar é viver". esta é uma daquelas músicas que lixa qualquer disposição para a destruição.

ou seja, assim de repente, não tenho palavras.

segunda-feira, abril 20, 2009

ode ao poeta

Se fui capaz de, muitas vezes, deleitar-me com as minhas lágrimas, o meu corpo rejeita visceralmente a possibilidade de causar as tuas. Se há alguma beleza no meu rosto banhado na água que brota dos meus olhos, a ideia de que os teus vertam uma gota sequer, dói-me no peito como um punhal lento.

Por isso, meu amor, compreendes que a noção de que possa existir alguém para quem provocar a dor é um exercício poético, me dá náuseas.

quinta-feira, abril 16, 2009

dito por outras palavras

quando não somos livres, se não somos verdadeiramente livres, agimos como irresponsáveis.

e tenho dito.

terça-feira, abril 14, 2009

Happy Birthday Mr. President

Quando morreste o meu irmão fez-te esta pequenina homenagem com o título Thirty Forever.
A verdade é que já fazes 41: Cooooooooooooooooooooota!
Beijos meus, meu amor.

domingo, abril 12, 2009

did i mention that drugs really do make a difference?

sábado, abril 11, 2009

quando for grande quero ter um blog de gente crescida. uma coisa planeada, com início e fim. e com um estilo, acho que é isso, um tom que atravesse. como este por exemplo! ainda não li muito mas parece-me bem...

quero ter um produto mais bem acabado digamos assim. esta coisa esquizófrenica até a mim me espanta: ai que a rapariga agora escolhe músicas do tempo da outra senhora, ai que lhe vai dando para a moral e bons costumes ou então vai ficando louca e dizendo palavrões feita carroceira.

e depois, acabar a noite passada em claro, partilhando risos tontos com a tv, aqui... is just plain stupid.

O ataque de cristandade deve-me estar a passar porque...

a minha alma está parva.

sexta-feira, abril 10, 2009

Perdoem-me: quando começar a transcrever partes da bíblia é porque estou possuída.

O SERMÃO DA MONTANHA

É o mais famoso e importante discurso da Cristandade. O sermão definiu um código de conduta que continua a ser a base da moralidade ocidental.
Referido por Lucas no capítulo 6.º do seu Evangelho é, em princípio, transcrito integralmente nos capítulos 5.º a 7.º do Evangelho de Mateus, que o apresenta assim:


«Ao ver a multidão, subiu a um monte, e, depois de Se ter sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. Tomando então a palavra, começou a ensiná-los, dizendo:»

«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
(...)
Ouviste que foi dito: "Olho por olho, e dente por dente". Eu digo-vos: Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. Se alguém te obrigara acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pede, e não voltes as costas a quem te pedir emprestado».

Ouvistes que foi dito: "Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo". Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem já os publicanos? E, se saudais somente os vossos irmãos que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Sede, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste.
(...)
Não julgueis para não serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Como ousas dizer ao teu irmão: "Deixa-me tirar o argueiro do teu olho", tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés, e, acometendo-vos, vos despedacem.»

quarta-feira, abril 08, 2009

a ver se consigo dar alguma utilidade ao Twitter

Twit, twit, twit!...
desculpem-me a falta de sentido de humor mas para além de não ter medo, estou a ficar um bocado farta do bicho papão.

segunda-feira, abril 06, 2009

Sentenças/Sentences (2ª)

ao telefone com outra gaja (entenda-se, amiga):

- Porque nos últimos anos, e convenhamos, também nos anteriores, foram sempre os gajos que me deram com os pés e isso não faz sentido porque eu... bem... eu sou eu!

felizmente, do outro lado, a gaja concordou.

Esta rapariga, tal como eu, era um bocado estúpida

mas como começo a ficar farta, e hoje está de chuva, vou mergulhar no aquário






Patsy Cline - Crazy

domingo, abril 05, 2009

Sentenças/Sentences (1ª)

Dizes-me que tenho uns dentes bonitos e rebenta um sorriso na minha boca.

sábado, abril 04, 2009

while i'm awake

Quando eu sou eu, quando estou estou em mim, vivo noutros. Aceito-o pacificamente. Abraço essa maneira de ser. É debaixo da pele dos outros humanos que reside a felicidade, a amizade, o encontro, a entrega, o amor, e é lá que quero habitar.

Existiu um tempo onde só me encontrava em ti, mas tu não estás cá, not anymore, estás dentro de mim, és parte de mim, parte do património que tenho para partilhar com os outros. Não me permitirei esquecer-te. Hás-de doer-me sempre. A tua carne é a minha carne, os teus olhos são os meus olhos, as tuas veias as minhas veias, o teu sexo o meu sexo.

Tudo isto interessa e não tem, ao mesmo tempo, importância nenhuma. Só eu tenho que lidar com isso, a vida real não se compadece com presentes e passados e corre independentemente de nós.

Claro que às vezes é preciso perder algum tempo a desfragmentar: levanto-me e vou decapar uma porta, tirar a cera um móvel, pôr uma máquina a lavar, estender lençois, arranjar as sobrancelhas, novamente cortar a franja de uma forma esdrúxula, tratar dos extratos bancários, brincar com o computador, ouvir a mesma música até à exaustão. Coisas banais, manuais, úteis, automáticas. Coisas minhas. Dentro de portas.

Mas sei que um dia a vida, a tal vida real, apanha-me distraida e faz-me esquecer que há coisas que me escurecem: a deslembrança dos passos em falso. Descuidada e ainda intencionalmente avançarei sobre o abismo da existência rindo.

sexta-feira, abril 03, 2009

Quando chegaste

não te perguntei nada. Tinhas apenas voltado e tudo era como dantes.

Mais tarde fiz as minhas birras, perguntei-te porque me tinhas deixado tanto tempo sem ti. Tanto tempo enganada e a cometer enganos.

Compreendi finalmente que tinhas levado contigo os teus discos porque no momento em que o carro se despenhou percebeste que tinhas que ir viver outra vida sem mim.

Sabia que te tinha visto. Várias pessoas sabiam que andavas por cá e optaram por não se intrometer: era uma escolha tua continuares morto.

Disseste-me que tinhas dormido com muitas mulheres e outros homens. Sujámo-nos ambos. E quando voltaste passámos a faze-lo juntos.

Continuamos imperfeitos mas o teu lugar é aqui. O nosso sítio é o mesmo. Pertencemos um ao outro, por isso voltaste e por isso te quero exactamente do mesmo modo infernal, infeliz e lógico que temos de estar.

Ao acordar sabia-me deitada incómoda neste sofá, era este sófa e este tempo. Antes de abrir os olhos senti-te ainda sentado debaixo das minhas pernas. No segundo seguinte lembrei-me que o caixão estava aberto e tu estavas lá, lindo, frio, morto em exibição.

quinta-feira, abril 02, 2009

6 dias antes de morreres

6 dias antes de morreres fazias rádio.
6 dias antes de morreres batias punhetas ao som da porno chachada.
6 dias antes de morreres cozinhavas delícias.
6 dias antes de morreres zangavas-te comigo.
6 dias antes de morreres eras o meu melhor amigo.
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2
1
...

Como a "tua" música é para ser ouvida sempre, aqui está ela.

Os vários programas de Gino a.k.a Plexus estão disponíveis directamente no seu castpost ou aqui mesmo, navegando na barra por baixo da imagem correspondente ao programa de 26 de Novembro de 2006.




quarta-feira, abril 01, 2009

Lost

Estamos num espaço labiríntico.
Eu, tu, um filho teu.
Procuramo-nos e perdemo-nos nos corredores cilindricos.
Estamos aflitos, não há tempo, não há dia, não há espaço exterior.
O menino deixa-nos em cuidados: Para além de nós existe ele que brinca, que foge aos perseguidores e nos escapa.
Nós... nós só queriamos encontrar-nos.

Regime de 1/2 Pensão

segunda-feira, março 30, 2009

Azul petróleo

She wore blue velvet
Bluer than velvet was the night
Softer than satin was the light
From the stars
She wore blue velvet
Bluer than velvet were her eyes
Warmer than May her tender sighs
Love was ours
Ours a love I held tightly
Feeling the rapture grow
Like a flame burning brightly
But when she left, gone was the glow of
Blue velvet
But in my heart there'll always be
Precious and warm, a memory
Through the years
And I still can see blue velvet
Through my tears

sábado, março 28, 2009

MO' HORIZONS - HIT THE ROAD JACK (PÉ NA ESTRADA)

Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar

Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar

Oh baby não se engane, não me trate assim
O tempo é curto, fosse tão ruim
Pense com o coração e você vai entender,
Eu tô cansada desse drama,eu não aguento mais sofrer
A vida não pára, só passa
E o seu problema não está em mim,
E o seu problema não está em mim

Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar

Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar

Você me maltrata, me chama não diz nada
Vou botar os pés no chão e seguir na estrada
Não pense que o destino é assim tão cruel
Na vida cada um representa o seu papel
Não perca seu tempo nessa confusão
Eu vou fazer as minhas malas e seguir com a decisão

Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar

Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar

Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Não vou voltar nunca mais
Não vou voltar nunca mais

quinta-feira, março 26, 2009

The Chordettes

Será que deus nosso senhor me perdoa por pôr no ar música tão depreciativa para as mulheres?

Terão acabado estas meninas os seus dias rodeadas de gatos, feitas cat ladies, ou um dia acordaram para a vida e perceberam que podiam ser a cat woman?

À maneira de Benamor Lhopes

A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.

A vida não é de escolhos.
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
Com o relento de um sentimento?

Serei eu a tua escolha?

Abre os olhos e olha,
Que eu já me escolhi em ti!

Alexandre O'Neil


Este senhor O'Neil vai obrigar-me a comprar mais alguns livros que só vou poder ler no verão. Rai's parta a poesia!

quarta-feira, março 25, 2009

Para uma leitora

Estar apaixonado só é segurança, certeza, eternidade nas músicas do adolescente Richie Valens.

A música dele é adorável e eu também quero acreditar: por isso, quando tenho oportunidade, gosto de dançar a pares.

terça-feira, março 24, 2009

as pessoas quando se apaixonam ficam todas iguais: à nora.

segunda-feira, março 23, 2009

algures no verão de 93

"Fizemo-lo juntos sob o sol, partilhámos a poesia, ainda que eu não tenha jeito para o fazer. É bom saber que existem amigos assim. AMIGOS!

(...) é bom ter-te aqui para se gostar, conversar, discutir, fazer poemas. Quero fazer mais destes poemas sem significado que significam tanto. Significam um dia com muito sol e vento num lugar nosso onde fizemos um poema nosso, só para nós.

******, quando crescer quero ser como tu.

Quero ter essa simplicidade de palavras e sentimentos que tu tens, que tu demonstras, não sei se tens. Quero saber ser amiga como tu, ter tempo para tudo e quero até sonhar (...).

Um dia vou saber fazer poemas como tu ou então vou escrever a minha prosa em forma de poesia para tu veres que também eu quero escrever (...)."

A dada altura o meu amigo deixou de fazer poemas comigo, deixou de dizer que gostava muito de mim e para sempre. Casou com uma colega arquitecta, mudou para um subúrbio ainda mais suburbano e perdi-lhe o rasto. Quando crescer já não quero ser como ele, no entanto... ele motivou este texto adolescente e só por isso já deve ter valido a pena.

sexta-feira, março 20, 2009

Délia de Carvalho

Artista e amiga.

Sim, sim, estas duas palavrinhas são um link para conhecer o seu trabalho.

quinta-feira, março 19, 2009

conversas com um homem morto

Releio-nos.

Baby, continua a dar-me prazer conversar contigo. Estás vivo nas nossas conversas banais. Nem sequer são só banais, são espirituosas, são sarcásticas, ou picadas, crispadas, dolorosas mas também banais. A ementa do jantar, os beijos na pila, as palmadas no cú, a troca de carros, os sorrisos angulares. Are u there hun? :>

Não me dói: continuas a fazer-me sorrir, a oferecer-me gargalhadas e a comover-me, tal como na primeira vez. Lamento simplesmente não dar continuidade ao log gravado no teu disco rígido. (ai! a expressão disco rígido dá para tantas linhas de palhaçada, n'est ce pas baby?)

Sei que que que me amas, sei que me amavas apesar das apostas perdidas, das escolhas pouco convictas e da nossa lucidez final. Por isso deixei, no cubículo frio onde habitas agora, esta música. Perdoa-me porque continuo a errar.






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nina simone - my baby just cares for me

reboot

deitei-me com o corpo em chagas.
a pele em escamas, o peito ferido pelo espartilho que o oprime, as coxas violetas e exangues, os pés em fogo. espancada pelo dia, estuprada: exausta.

passei a noite entre deformados, ensanguentados e humilhados. a violência primária que nos permite desfragmentar o sistema interior.

hoje tive um dos melhores acordares dos últimos meses. dorida, calma, morna, desperta.

terça-feira, março 17, 2009

irónico, irónico era...

que tropeçasses e partisses o nariz!

e eu saia rapidamente da piscina, deitava-te a língua de fora e corria para o colo de alguém.

outra vez a puta da poesia

Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

domingo, março 15, 2009

o meu silêncio

um dia daqueles só meus. feitos para mim.
sol nos vidros molhados, a casa limpa, vazia.
a luz lá foram sem a excitação da saída: quero estar aqui sozinha.
a penumbra a chegar lentamente ao meu sono e o sono vazio de sonhos. a cabeça quase vazia de ideias.

sair ao fim do dia, o ar ainda cálido, os pés descalços. a cidade está silenciosa e a praça desprende-se de odores primaveris.

voltar a casa e saber com certeza que ninguém me perturbará.

sábado, março 14, 2009

E se te digo: na Azambuja meu amor, a Ford é na Azambuja - é porque desejo amar-te mais, mesmo sabendo este é o dia em que me quererás menos. A natureza que me pariu é de essência amável.

Não sei ser de outra forma e também não quero. Mas pergunto-me... pergunto sempre porquê.

Procuro modos de desgostar-me de ti, busco o desprezo e ainda assim encontro compaixão. Dói-me imaginar-te perturbado... uma dor fininha, uma revolta ansiosa e ainda assim falo, como, ando, sorrio, trabalho, carrego, arrumo e sonho: com futuros solares, com presentes satisfatórios.

E depois não há palavras, nem elas adiantam, não há acções possíveis, nem gestos, porque não há quem as ouça nem quem os receba.

quinta-feira, março 12, 2009

segunda-feira, março 09, 2009

as mulheres sós, as mulheres amargas e as mulheres honradas

Há solidões de que não podemos esquivar-nos. E se as pessoas são más e absurdas, procuro entre elas outros cristãos.

A amargura é a doença dos seres solitários. Daqueles que desistiram de encontrar.

Eu sou a busca e o mel. Por isso nunca fui considerada uma mulher honrada.

Pois que se foda!

domingo, março 01, 2009

Sexy Killer

(1) Foto Pedro Ferreira

Bitter Moon - Lua de Mel, Lua de Fel

Roxy Music - Avalon

Não durmo.

Não durmo, sorrio.
Não durmo, trabalho.
Não durmo, sonho.

Sinto-me exausta.

sábado, fevereiro 21, 2009

uma noite em 5 episódios

Uma fila de buffet. Nessa fila negam-nos comida, cobram-nos mais, roubamos qualquer coisa. Sabemos que existem outras salas onde os bolos são feitos com ovos verdadeiros mas nesta sala enorme de congressos, campo de férias, campo de concentração, a comida é composta de pseudo-alimentos e toda a gente faz o melhor que pode para se desenrascar.

*

É de noite e num longo corredor de madeira estão expostos quadros. Somos encarregues de os pintar a rolo. As cores são claras: rosa, laranja quase fluorescente. O ditador irá eleger o seu favorito esta noite. Devemos ser rápidos.

A vencedora habitual deste prémio enfurece-se. Aparentemente cometemos um erro. O seu quadro não deveria ter sido profanado. De qualquer forma projectamos sobre ele luz, cores, e à medida que estas se sucedem é visível através da tinta clara um rosto. Um retrato. O ditador.

*

Embrenhamo-nos mais fundo no campo, na casa, na instituição. Os percursos são interiores e também exteriores. Na rampa alcatroada ao ar livre ficamos na fila. Voltámos ao magote de gente que se atropela para o buffet. Há transexuais, gente deformada, avisto o nosso amigo cuja doença degenerativa torceu à cadeira de rodas, outros, estranhos e conhecidos, sorrisos e olhares ameaçadores. Julgo que nada disto é verdadeiro, parece-me que estão todos desesperados. Na bicha sou acusada de roubar um ramo de flores destinado, e pago a peso de ouro, a outra pessoa, sou acusada de tirar uma sobremesa que não é a estipulada pelo menu a que tenho direito. No fim roubo a sobremesa mais cara e agonio sob peso do pseudo-creme doce.

*

No fim de um dos corredores de quartos e balneários, surge a gruta aquática onde está aquela família (a nossa família?) e os bebés estão estranhos. Os bebés são estranhos. Tomo um nos meus braços e vamos nadar. Os olhos dele estão já mortos e exige submergir para sempre. Procuro ganhar tempo, oferecer-lhe contacto com o seu irmão humano, dar-lhe de comer. À medida que o dia declina sabemos que a transformação é inevitável e visível na textura da sua pele que se torna a cada minuto mais lustrosa e escorregadia e no seu corpo inchado, disforme, inumano.

Liberto-o e vemo-lo deslizar na massa de água negra. Não hesita nunca porque essa é a sua natureza e esse será também o seu fim.

*

É necessário desmontar a exposição, os quadros são agora extensos painéis no relvado húmido, verde, noite. Está em causa contrabandear a madeira e fugir daquela prisão. As tábuas são imensas, todos os painéis estão escorados com pesadíssimas vigas maciças e o camião é carregado clandestinamente por várias pessoas. A contrapartida é pintarmos 6 outdoors cobrindo a publicidade neles exibidos. Ao longo da estrada, montados nas pranchas roubadas, vamos cruzando o trabalho feito pelo primeiro grupo de fugitivos. Tememos pela nossa segurança: a pintura é humilhante, são visíveis os fantasmas daquilo que ali constava anteriormente e isso coloca-nos ainda mais em perigo.

Sei que é apenas um rapaz, mas permito que o desconhecido sentado atrás de mim envolva os seus braços à volta do meu corpo e me masturbe por cima da roupa. Prefiro não lhe conhecer o rosto.

Saber viver é vender a alma ao diabo

O meu amigo J*** ofereceu-me no Natal de 2007 um poema, a mim e mais alguns amigos. Foi assim que ele introduziu esta prenda.

"Nesta quadra horrível e solitária, um poema, público, para cada um de vós...".

Este foi o que me calhou e sei, porque o conheço, que não foi simplesmente o que me "calhou" e por isso agradeço-lhe.

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

*

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...

Alexandre O'Neill

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

a fuga


Hoje senti-me assim:



Por isso fugi para aqui:

Pelo caminho comprei uma destas:


domingo, fevereiro 15, 2009

E eis que voltaram as filas imensas para a casa de banho. Espaços amplos, modernos, cheios de gente. Um imenso museu talvez. Um enorme centro comercial de luxo. Qualquer coisa, não sei. Lá dentro labirintos de compartimentos e portas fechadas, ou portas abertas com fechaduras desengonçadas, muitas gabines ocupadas, poucas vagas. E as tentativas começam. Uma porta e tudo é absolutamente imundo, àgua, fezes, urina. Outra o porta: cenário de latrina, cenário de campo de concentração, em tudo semelhante a um festival de verão na sujidade mas muito mais triste, angustiante, sem alternativa. E não é que a vontade se faça sentir, mas tenho de continuar a tentar encontrar um sitio mais limpo, mais luminoso. Já nem sei sequer onde é a saida, já nada lembra que estamos num espaço dentro de um espaço moderno, amplo e luxuoso. As pessoas esperam frente aos compartimentos, as pessoas movimentam-se de um lado para o outro sem razão aparente, as pessoas entram. Concluo que não encontrarei nada melhor. Procuro apenas agora o menos mau. O menos mau é sórdido, talvez não seja sequer o menos mau, talvez seja igualmente mau. Água, mijo, merda. Procuro não tocar em nada, procuro não me molhar, procuro não deixar que o meu corpo se encoste às paredes que transpiram excrementos. Sou obrigada a reparar que existem duas retretes no mesmo compartimento. A privacidade não existe. Sujo-me. Saio. Acordo antes de chegar ao espaço amplo, moderno e luxuoso.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

More than this

Tontices!

Vinha aqui para "postar" uma música muito bonitinha mas o castpost fintou-me. Como sou burrinha não conheço outro modo de o fazer, enfim...

Dito isto, ocorreu-me uma ideia bestial agora mesmo: "as mulheres só deviam apaixonar-se por outras mulheres". Pensei-o e um sorriso surgiu-me na face sem que o pudesse evitar. Que tonta sou!

sábado, fevereiro 07, 2009

Quando a ficção e a realidade se tornam demasiado próximas, a ilusão e a esperança se confundem, as palavras adquirem por vezes vida própria. Por tudo isso, peço desculpa.

as palavras que nunca me dirás

Esta noite vi-me ao espelho
Bebi licor de amoras
Calcei botas douradas
Cantei línguas estranhas
Porque amanhã volto a partir

Quero perder dinheiro
Jogar tudo o que ganho
Acender muitas velas
Pingar limão nas ostras
E de manhã não ver ninguém

Esta noite eu conto estrelas
Volto a dançar na praia
Enrolo-me em cetim
Conheço os versos raros
E amanhã fechei a mala

Aposto o que não tenho
Que me vais trazer rosas
Vais tocar-me na pele
Adormecer sem pressa
E de manhã chamar por mim

Quero entregar-te o mundo
Escrever-te uma carta
Menina do violino
Toca à minha janela
E de manhã podes dormir

Esta noite eu pago tudo
E acendo paus de incenso
Perfumo-te os cabelos
Vou deixar-te os meus livros
E de manhã já cá não estou


Clara Pinto Correia in "Canções que já não existem"

Adenda

Faz de conta que é só fechar a porta
E o mundo fica do outro lado
Agora eu sou a mais linda da festa
E tu és mesmo o meu namorado

Eu só quero beijar-te mais vezes
Faz de conta que vamos ter filhos
Numa casinha à beira da estrada
Que até tinha lagos com junquilhos

Hoje eu quero dizer para sempre
E viver a pensar só em ti
Faz de conta que é mesmo verdade
Que amanhã ainda estamos aqui

Posso olhar-te de frente nos olhos
Acreditar em tudo o que dizes
E enquanto durar esta noite
Faz de conta que vamos ser felizes

Clara Pinto Correia (estranhamente!) in "Canções que já não existem"

segunda-feira, janeiro 05, 2009

i see no point in dreaming alone

segunda-feira, novembro 03, 2008

holding my breath

Saí rapidamente da piscina, esfreguei-me energicamente à toalha turca e fui pela vida apressadamente. Mais egoista que isto impossível.

Tenho nostalgia da existência debaixo d'água. Sustenho a respiração até ao momento em que voltarei ao estado líquido e reflexivo a que me habituei. Agora tenho pressa. Na piscina sinto-me, por vezes, demasiado só.

terça-feira, setembro 30, 2008

sobre o silêncio

não estou calada. grito.
a bigorna é boa, não nos confundamos. é a realidade desejada. não me queixo. não é, no entanto, banal.
entretanto, o meu globo ocular, sangrando fora da sua órbita, vê ainda todos os pores-de-dia do mundo.

terça-feira, setembro 23, 2008

A puta da realidade

Se calhar é sina. Se calhar é destino, karma, maldição ou benção. Existirão porventura outras pessoas como eu. Não conheço nenhuma.

A realidade, a mim, quando chega é tal qual uma bigorna lançada do quarto andar. Esmaga-me o crânio e tira-me o ar.

Ela é, por isso, muito mais fantástica do que qualquer ficção. E as ambições de banalidade, muitas vezes, não passam disso: ambições.

sexta-feira, setembro 12, 2008

porque eras o amor da minha vida te cito. sabias tudo e não cumprias nada. e mesmo assim amei-te. ficcionavas e dizias verdades que te iam no coração

ATENTO


- Não me disseste nada sobre a minha saia nova. Verde alface, justa, curta. Não te lembras nunca das nossas conversas, do nome das pessoas de que te falo, dos sítios onde vou com elas. Esqueces-te de acordar nos dias em que te peço para vires ter comigo e almoçar. Sinto-me disponível para os outros. O que queres que te diga mais? Nunca comentas o meu novo penteado, as unhas pintadas, a depilação feita a custo. Não apareceste sequer na vernissage da minha exposição. Toda a gente a perguntar por ti e eu sem saber o que dizer. Pouca gente das minhas relações te conhece, ou, se te conhece, raramente te vê ao meu lado. Quero sentir carinhos em público, mostrar-me amada, desejada. Passamos o tempo enfiados num buraco escuro e fumarento. Vou ter contigo, fodemos, dormimos, eu acordo e vou trabalhar e tu ficar ali, estendido nu nos lençóis marcados de sangue de resquícios do período. A ti basta-te foder-me o cu, apalpar-me as mamas e saber que mais ninguém o faz. Mas eu quero mais! Quero um projecto de vida, ser infiel por prazer e não por consequência. Quero a minha casinha onde são os outros que levam as cuecas, a escova de dentes e a roupa para o dia seguinte. Um espaço para as minhas coisas, os meus livros, a minha roupa e deixar de parecer uma nómada em tua função. Percebes?

- Percebo. Para mitigar esta nossa desavença, distancia ou disfunção (ou seja lá o que lhe queiras chamar) vou deixar o meu trabalho de guarda-nocturno. Eu estou atento.…

“de tudo ao meu amor serei atento. E antes e com tal zelo e sempre e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se encante o meu pensamento.”Vinicius de Moraes


Egínio Alberto dos Santos Teixeira (14/04/1968 - 03/12/2006)

quarta-feira, setembro 10, 2008

chatting with a girlfriend...

"o amor não resolve tudo, por isso é preciso trabalho para limpar os cantos à casa"

Sim, menina, tudo muito bem limpinho, se não, já sabes! liga-me!

segunda-feira, setembro 08, 2008

das escolhas...

há escolhas que se tornam fáceis a golpes na traqueia
há escolhas que são apenas naturais

há navalhas que nos abrem as carótidas, outras ceifam simplesmente papoilas

existem muros que são diques outros que são muralhas

há escolhas que não são escolhas e outras que não se fazem.

Amanhã é sempre o primeiro dia do resto da minha vida e lá não há lugar a desilusões.

[porque eu não quero]

domingo, setembro 07, 2008

sabia que estavas de passagem e sabia que passavas incógnito. eu sabia e tu sabias mas não tinhamos a certeza se o outro saberia que sabiamos.

apesar disso sorria-te muito e tentava dizer-te tudo nas poucas palavras que tinha disponiveis. queria que me conhecesses e por isso inundava-te de imagens familiares e sujeitava-te à familiaridade da minha casa. eu queria tanto.

no entanto continuavas efémero.

hoje entraste pela primeira vez nos meus sonhos. passado exactamente o tempo suficiente para isso aconteça: muito.
A princípio é simples, anda-se sozinho mas dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo. Diz-se do passado que está moribundo e então luta-se por tudo o que se leva a peito. Enfim duma escolha faz-se um desafio e bebe-se a coragem até dum copo vazio.
… e vem-nos à memória uma frase batida : hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

O PRIMEIRO DIA

A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo

bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho

quinta-feira, setembro 04, 2008

19 de Agosto - manhã




Peine del Viento, Eduardo Chillida

San Sebastian, Espanha



(7) Fotos Ana Conde
Chillida Leku

18 de Agosto





(5) Fotos Ana Conde
Bilbau, Espanha

17 de Agosto - fim de tarde/noite



(3) Fotos Ana Conde

Bilbau, Espanha

17 de Agosto - manhã

(1) Foto Rita Calvário
A nova Laboral

(1) Foto Ana Conde



(1) Foto Ana Conde


A velha Laboral



Gijon, Espanha

16 de Agosto 2008 - tarde

A caminho do horizonte


(3) Fotos de Ana Conde


(2) Fotos Ana Conde



Elogio ao Horizonte, Eduardo Chillida

Gijon, Espanha