Trouxe um dia, a este espaço egoista onde me movo, aquilo que achei ser uma homenagem ao teu amor. Repito-a hoje porque sei, cada vez com maior realidade, que quando os nossos amores morrem há livros que nunca mais se abrirão.
Tu és agora um livro para sempre fechado, uma gargalhada que apenas revisitarei em sonhos. O espaço que desocupaste no mundo, nas nossas vidas, na minha vida é enorme. A piada que faremos a seguir, meu amor, só nós conhecemos.
Eras um valente, um sábio, um generoso amigo mas isso todos sabem. Para mim continuas a ser, essencialmente, um tipo muito bem educado. Sei que me entenderás.
Perdoa a minha ausência no teu momento mais humano.
"Sábado, Janeiro 07, 2006
dos gelados, dos perfumes e dos locais onde não iremos mais...
Uma homenagem a duas pessoas que não sabiam onde acabava um e começava o outro..."
Limites
Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este Verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.
De Inscriptiones (Montevideu, 1923)
de Julio Platero Haedo
in Poemas Escolhidos de Jorge Luís Borges
João Antunes, Março de 1963 - 31 de Agosto de 2009
Segunda-feira, Agosto 31, 2009
Sábado, Agosto 01, 2009
Açores
Estive nos Açores para testemunhar os 50 anos de casamento de um casal da ilustre comunidade faialense.
Fernando Melo*, no seu discurso, disse: "Quero agradecer-vos o favor de serem meus amigos" e explicou "a amizade é um favor que nos prestam e que eu tento retribuir".
Eu também.







Fernando Melo*, no seu discurso, disse: "Quero agradecer-vos o favor de serem meus amigos" e explicou "a amizade é um favor que nos prestam e que eu tento retribuir".
Eu também.
* Foi Professor da Escola do Magistério da Horta, onde se formou em 1952. Desempenhou funções de coordenação educativa (na Junta Governativa em 1976, na Telescola, no Centro de Apoio Tecnológico e outras). Desenvolveu uma vasta actividade redactorial, na Terceira (DiárioInsular) e no Faial (Telégrafo, Correio da Horta e Tribuna das Ilhas), colaborando também com outros jornais açorianos, do continente e das comunidades portuguesas nos EUA. Destaque articular merece a colaboração em várias estações de rádio mas, em especial, na RTP-Açores, de que foi o primeiro jornalista correspondente no Faial. Autor de muitos programas televisivos incidindo em trabalhos de pesquisa histórica sobre os Açores, as suas gentes e as suas circunstâncias.
Expressiva é também a actividade literária, do comentário à crónica, da poesia ao ensaio. Publicou os livros «Fragmentos de Memória» (1993) e a «A Prenda de Natal… e outras histórias» (2003).
Fernando Melo é natural de S. João do Pico (4/10/1932).
Expressiva é também a actividade literária, do comentário à crónica, da poesia ao ensaio. Publicou os livros «Fragmentos de Memória» (1993) e a «A Prenda de Natal… e outras histórias» (2003).
Fernando Melo é natural de S. João do Pico (4/10/1932).
Sexta-feira, Junho 26, 2009
Domingo, Junho 21, 2009
Sentenças/Sentences (7ª)
a atracção pela infelicidade é uma coisa que eu tenho dificuldade em compreender
Quarta-feira, Junho 17, 2009
fui criada para aceitar a morte. aceitar é a palavra certa. o quarto dele foi desmontado antes que chegassem a a casa.
não fui criada para aceitar a ausência. quem é vivo está sempre presente.
não fui criada para aceitar a ausência. quem é vivo está sempre presente.
Terça-feira, Junho 16, 2009
Mantra
Repetir 25 vezes antes de sair de casa, inspirando lentamente.
as pessoas não têm de corresponder às nossas expectativas.
não há qualquer lei cósmica que obrigue os outros a agir de acordo com os nossos desejos.
Ao chegar, exausta, redizer esta fórmula até que se desate o nó na garganta.
as pessoas não têm de corresponder às nossas expectativas.
não há qualquer lei cósmica que obrigue os outros a agir de acordo com os nossos desejos.
Ao chegar, exausta, redizer esta fórmula até que se desate o nó na garganta.
Domingo, Junho 14, 2009
return, repeat, regret
Tento discernir se o tédio lento que me invade o corpo tem qualquer coisa de épico ou se é apenas banal. Se o modo com o meu corpo se adapta à contrariedade tem qualquer coisa de vaga movendo-se de acordo com os caprichos da lua ou é apenas putrefacto cadáver sacudido pela rebentação.
Disperso-me em significados e significações mas não há neste movimento esforço. A intencionalidade, já sabemos, é fonte de mágoa e esse é um luxo a que não me quero permitir mais.
Por isso, suavemente, atravesso um tempo em que os astros não alternam, o céu mantém-se para sempre cinzento, as estações são agora um único e final apeadeiro.
O caricato é que, grandioso ou não, já todos conhecemos o meu melhor olhar.
Disperso-me em significados e significações mas não há neste movimento esforço. A intencionalidade, já sabemos, é fonte de mágoa e esse é um luxo a que não me quero permitir mais.
Por isso, suavemente, atravesso um tempo em que os astros não alternam, o céu mantém-se para sempre cinzento, as estações são agora um único e final apeadeiro.
O caricato é que, grandioso ou não, já todos conhecemos o meu melhor olhar.
Sábado, Junho 13, 2009
azáfama
fodiam como os cachorros brincam. havia um afã qualquer naquela actividade que ia para além do lógico e do seu próprio propósito. cansavam-se mais do que o necessário e o prazer era sempre menos do que esperavam. não deixavam por isso de foder e a vontade aumentava na proporção em que o faziam: como se esperassem que aquela dentada derrubasse, por fim, o adversário.
Sábado, Junho 06, 2009
período de nojo
não tomo banho há 34 dias.
não escovo os dentes há exactamente 72.
não corto as unhas há 182 dias e observo o seu crescimento encaracolado no sentido da carne com uma espécie de orgulho doloroso.
não escovo o cabelo desde o primeiro dia do ano.
Fumo e cotão alojam-se nos longos tubos engrenhados e, agora que os corto, libertam-se numa nuvem poeirenta. Depois de todos os nós de cabelo terem caido por terra, afio uma faca e raspo o crânio. Corto-me e observo ao espelho o sangue espastar o sarro que se acumula no pescoço e nas clavículas.
Pondero correr para a rua nua e deixar a chuva desenhar-me no corpo sulcos enquanto uma poça lamacenta se forma a meus pés.
Domingo, Maio 31, 2009
gravidade
e se eu tivesse os tornozelos muito inchados? e se eu tivesse o andar de um patinho desajeitado? amar-me-ias?
o engraçado é que tenho a certeza que sim.
o engraçado é que tenho a certeza que sim.
Sexta-feira, Maio 29, 2009
Sentenças/Sentences (6ª)
o desamor perdoo-te, do amor me perdoo.
para a ignomínia da indiferença, não encontro perdão.
para a ignomínia da indiferença, não encontro perdão.
Quinta-feira, Maio 28, 2009
chemical hangover
Ordena-me: a menina leia isto que aqui está escrito se faz favor e confirma com voz de quem afirma, esta é a sua letra, não é?. Não existe outra hipótese senão repetir as palavras que escrevi, (sim é a minha caligrafia), e não recordo ter escrito. Apenas reconheço que o fiz porque me dói a cada sílaba. E não sei se me fere mais a ordem, se a leitura, se o teu olhar atento, aflito e cobarde enquanto me ouves despir o meu amor por ti: infeliz e sem retorno na margem de um papel. Uma folha recortada, anotada e velha onde, a lápis, perdida entre outras glosas, consta a confissão.
***
Entre a mutação e a fuga [de bicicleta ou conduzindo uma carrinha de porta lateral deslizante?].
Entre uma muito nocturna Rua dos Clérigos e um deprimido espaço comercial.
Entre a chuva que molha a celebração e o caos do último dia.
Sobrevivi a uma noite inteira de tarefas que realizo com náusea.
Debati-me com informações contraditórias.
Cumpri os meus últimos desejos.
***
Entre a mutação e a fuga [de bicicleta ou conduzindo uma carrinha de porta lateral deslizante?].
Entre uma muito nocturna Rua dos Clérigos e um deprimido espaço comercial.
Entre a chuva que molha a celebração e o caos do último dia.
Sobrevivi a uma noite inteira de tarefas que realizo com náusea.
Debati-me com informações contraditórias.
Cumpri os meus últimos desejos.
Silvio Rodriguez - Mi Unicórnio Azul
Silvio Rodriguez - Mi Unicórnio Azul
clicar no link acima
A música que devia ser possível ouvir (e pelo menos no meu computador não é) na barra lateral. Espero assim conseguir partilhá-la.
clicar no link acima
A música que devia ser possível ouvir (e pelo menos no meu computador não é) na barra lateral. Espero assim conseguir partilhá-la.
Terça-feira, Maio 26, 2009
Sexta-feira, Maio 22, 2009
Voyer II
Quando se deu conta da sua presença, ela estava a meia dúzia de passos da porta. O sol tornava o dia invulgarmente quente. Deixou-se estar no seu local mas o seu primeiro impulso foi correr em seu auxílio tomando-lhe dos braços vários dos volumes que transportava.
Não o fez. Se o fizesse deixaria de fazer sentido observá-la.
Não deixava, no entanto, de se surpreender com aquela capacidade absurda que ela demonstrava de trazer e levar. Carregar, transportar. As coisas que muda de sítio são sempre diferentes: caixas, sacos, papéis, canudos, tecidos, máquinas e livros. Ele tentava muitas vezes deslindar o significado daquelas idas e vindas. Ao fim de algum tempo começava a ser possível adivinhar onde ia, de onde vinha e podia até seguir o fio dos seus dias ou de uma ou outra coisa que a ela se dedicava naquele momento. Outras vezes era pura e simplesmente impossível entender o que aquele leva e trás esconde ou revela.
Naquele dia debatia-se, uma vez mais, com aquela bolsa de cor indefinida cujo tom se aproxima bastante dos sacos de plástico da Mariazinha. Procurava as chaves enquanto equilibrava na anca uma belíssima caixa de madeira daquelas que imaginamos a viajar em cargueiros. Esboçou um pequeno esgar de dor quando se rendeu à carteira e se baixou para pousar a caixa. Suspirou.
A carteira finalmente aberta em cima da caixa. Ele percorreu então os seus gestos demorados para encontrar o molho metálico que procurava e continuou olhando o suor que lhe preenchia o lábio superior, lhe molhava a t-shirt debaixo dos braços e numa fina linha abaixo do peito. Parecia aliviada pela pausa e por isso este procedimento levou muito mais tempo do que seria necessário.
Tal qual uma mula de infinita paciência, escolheu então o ombro para a carteira, mudou a caixa para o outro lado da anca e equilibrou-lhe aquilo que, aquela distância, parecia um molho razoável de fotocópias. Abriu finalmente a porta, que entreabriu primeiro com o pé e terminou de empurrar com as costas, rodando sobre si própria. Foi nesse segundo em que, com a cara húmida e brilhante pelo o sol, ela se virou novamente para a rua, ele lhe vislumbrou o olhar. Teve então a sensação, pela primeira vez, que os olhos vermelhos dela atravessaram os seus.
(cont.)
Segunda-feira, Maio 18, 2009
hoje um espírito negro pairava sobre as pessoas. sorri-lhes e falei-lhes esperando retorno.
como ele não aconteceu, pirei-me.
como ele não aconteceu, pirei-me.
Sábado, Maio 16, 2009
Quinta-feira, Maio 14, 2009
spoiled birthday girl
Pronto. Todos me têm perguntado quais são os meus sonhos e desejos. Sim, para o meu aniversário. E a todos tenho dito "vá não sejas tonto/a! o que eu quero é que estejas presente.".
A verdade verdadinha é que prenda que eu quero imigrou da Itália para o Vietnam, e agora está como nova! Para conhece-la melhor basta clicar aqui.
Peçam um embrulho bem bonito e eu vou buscá-la ao Porto de Leixões. Thanks!

Domingo, Maio 10, 2009
Sábado, Maio 09, 2009
Voyer I
Sentava-se à sua porta. Nem sempre o fazia, mas desde que descobrira onde vivia fazia-o cada vez mais frequentemente. Não sabia explicar porque desenvolvera esse hábito, mas já descobrira o local onde poderia vê-la alcançar o puxador da porta, abri-la, dar aquele pequeno salto para o passeio e deixa-la bater atrás de si. Já tinha visto este momento demasiadas vezes para ignorar que a porta nem sempre fica fechada no trinco, por vezes fica só encostada, mas ao contrário da maior parte dos seus vizinhos ela nunca se volta para trás para certificar-se disso. Nessa altura estava já completamente convencido de que ela não podia importar-se menos com a possibilidade de alguém entrar no prédio.
Do local onde se instalara podia ainda notar como a imagem dela se reflecte na montra do café, da tabacaria, da frutaria, do bazar, da loja de velharias que está sempre fechada, do talho que fechou de vez, da churrasqueira, do minimercado, da tabacaria e depois disso perde-a de vista. Sabe que no café ela verifica o cabelo preso e a curva da nuca, no talho escuro a forma como as calças lhe assentam, depois perde-se nos títulos dos jornais e compara as parangonas das revistas para de seguida desaparecer realmente dos seus olhos. Vê-a ainda por vezes se optar por atravessar a rua, mas nessa altura já está em modo de andamento automático e na verdade já não é ela, é o invólucro dela.
Hoje saiu cedo, ar fresco, mas o prenúncio era de um dia bom. Leva um casaco leve porque certamente já o prevê. Ele já estava lá. Não se tinha ainda instalado, dirigia-se apenas para lá. Agradeceu o facto de ainda a ter apanhado a sair, de outra forma ficaria convencido que dormiria até tarde.
(cont.)
Sentenças/Sentences (4ª)
Há coisas que são de um mau gosto tal, que chega a ser ofensivo. Uma delas é a falta de educação.
Política
Amanhã vou escrever um bocadinho sobre política pela primeira vez neste blog.
Ah! Desculpem... na verdade... tenho estado sempre a fazer política.
Ah! Desculpem... na verdade... tenho estado sempre a fazer política.
Sexta-feira, Maio 08, 2009
vieram as chuvas e tu permaneceste
o teu crânio bilhante e húmido
veio a seca e tu quedaste-te imóvel com os pés gretados
acordo e tu escutas a noite em meu redor
caminho e tu caminhas em silêncio a meu lado
o teu crânio bilhante e húmido
veio a seca e tu quedaste-te imóvel com os pés gretados
acordo e tu escutas a noite em meu redor
caminho e tu caminhas em silêncio a meu lado
Domingo, Maio 03, 2009
Labirinto ou não foi nada
Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!
Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.
Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.
David Mourão Ferreira
À Guitarra e à Viola(1954-1960)
Obra Poética1948-1988
4.º Edição
Editorial Presença
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!
Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.
Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.
David Mourão Ferreira
À Guitarra e à Viola(1954-1960)
Obra Poética1948-1988
4.º Edição
Editorial Presença
Sexta-feira, Maio 01, 2009
back to life
Outra vez. Tu vivo. Todos sabem. Moras mesmo em frente. Tens uma casa grande, gordurosa, onde todos jantam. Já nem tenho a certeza de que gostas de mim. Tenho que lutar contra todos os teus outros afazeres. Queres castigar-me e todo este processo de me deixa exausta.
Volta, por favor, calmamente aos meus sonhos.
Volta, por favor, calmamente aos meus sonhos.
Quarta-feira, Abril 29, 2009
entre a sombra e o corpo
Final da tarde em Salamanca
O livro "entre a sombra e o corpo", publicado em 1980 por David Mourão Ferreira, contém 30 poemas de três linhas que o autor previne no prefácio não serem haicai por não terem a métrica 5-7-5 mas sim 6-6-3. Mais a adiante escreve o autor: "(o leitor..) dirá ainda se estes falsos haicai lhe parecem ou não verdadeira poesia. Para mim constituiram eles, sobretudo, o apaixonante ensejo de tentar dizer, do modo mais condensado - e com possibilidades de mais de uma leitura - muito do que há muito, ou desde sempre, me venho esforçando por exprimir".
A tal pessoa que respeito falou-nos neste... É engraçado como quando conhecemos uma coisa nova, ela passa a surgir-nos tão frequentemente.
Ao meio-dia em ponto
entre a sombra e o corpo
o encontro
Noção das conveniências...
Se bem me recordo, acho que ontem disse, num local formal, a uma pessoa que respeito, que as bolas de espelhos só serviam para potenciar o efeito dos ácidos. Basta a repetição destas palavras para me provocar, entre o diafragma e a traqueia, aquele sacudir próprio do riso incontrolável. O sorriso amarelo de incompreensão que se seguiu a esta frase, foi quase tão hilariante como a minha alucinação momentânea. Devo mesmo estar a perder a noção das conveniências...
Terça-feira, Abril 28, 2009
Tenho andado de sobrolho franzido, de semblante sombrio, até as promessas me cansam e cada sorriso é um esforço. As conversas maçam-me e os outros matam-me de tédio.
Há palavras que não me atrevo a dizer em voz alta, relatos que não faço, conclusões que não tiro e, ai de quem me obrigue a pensar.
Haja forma de vomitar o mundo: faço-o sem hesitar.
Há palavras que não me atrevo a dizer em voz alta, relatos que não faço, conclusões que não tiro e, ai de quem me obrigue a pensar.
Haja forma de vomitar o mundo: faço-o sem hesitar.
Segunda-feira, Abril 27, 2009
Épico
Isto está mesmo bem feito!
E agora para algo completamente fútil: Se alguém quiser costurar um vestidinho daqueles para mim, vou ser muito feliz, embora me pareça que não vá ficar tão distinta... acho que o estilo será mais prostituta vitoriana... nada contra.
E agora para algo completamente fútil: Se alguém quiser costurar um vestidinho daqueles para mim, vou ser muito feliz, embora me pareça que não vá ficar tão distinta... acho que o estilo será mais prostituta vitoriana... nada contra.
piscina egoísta
a tristeza é como a água.
o corpo estranha a temperatura. surpreende-se. freme enquanto a água corre fria. quente.
depois a água toma a nossa forma, preenche-nos. submergimos. está escuro, a água é negra. e forma-se um silêncio no espaço que antes era ar.
a água invade-nos, toma o nosso calor, entra-nos pelo nariz, pela boca, força o seu caminho até aos pulmões. entra pelos ouvidos que estalam até emudecer. por todos os poros da superfície inteira da pele. instala-se entre ela e o músculo. habita onde antes eras tu.
o corpo estranha a temperatura. surpreende-se. freme enquanto a água corre fria. quente.
depois a água toma a nossa forma, preenche-nos. submergimos. está escuro, a água é negra. e forma-se um silêncio no espaço que antes era ar.
a água invade-nos, toma o nosso calor, entra-nos pelo nariz, pela boca, força o seu caminho até aos pulmões. entra pelos ouvidos que estalam até emudecer. por todos os poros da superfície inteira da pele. instala-se entre ela e o músculo. habita onde antes eras tu.
Quinta-feira, Abril 23, 2009
Quarta-feira, Abril 22, 2009
Terça-feira, Abril 21, 2009
the healing power of music
hoje o post era para ser sexo, violência e morte, mas estou a ouvir o vitor espadinha e o eterno "recordar é viver". esta é uma daquelas músicas que lixa qualquer disposição para a destruição.
ou seja, assim de repente, não tenho palavras.
ou seja, assim de repente, não tenho palavras.
Segunda-feira, Abril 20, 2009
ode ao poeta
Se fui capaz de, muitas vezes, deleitar-me com as minhas lágrimas, o meu corpo rejeita visceralmente a possibilidade de causar as tuas. Se há alguma beleza no meu rosto banhado na água que brota dos meus olhos, a ideia de que os teus vertam uma gota sequer, dói-me no peito como um punhal lento.
Por isso, meu amor, compreendes que a noção de que possa existir alguém para quem provocar a dor é um exercício poético, me dá náuseas.
Por isso, meu amor, compreendes que a noção de que possa existir alguém para quem provocar a dor é um exercício poético, me dá náuseas.
Etiquetas:
crónicas complexus,
Right after fuck and murder
Sexta-feira, Abril 17, 2009
Connectivist Learning and the Personal Learning Environment
Tenho que aprender mais sobre estas coisas...
Quinta-feira, Abril 16, 2009
dito por outras palavras
quando não somos livres, se não somos verdadeiramente livres, agimos como irresponsáveis.
e tenho dito.
e tenho dito.
Quarta-feira, Abril 15, 2009
it takes two...
Alguém conhece aquele famoso passo de tango argentino chamado "fuga p'rá frente"? Este passo torna-se tanto mais fantástico quanto mais o nosso par ainda está na fase de tropeçar nos seus próprios pés.
O mundo é sítio estranho, os salões de baile também. O curioso é que continuamos alegremente a frequentar um e outros.
O mundo é sítio estranho, os salões de baile também. O curioso é que continuamos alegremente a frequentar um e outros.
Terça-feira, Abril 14, 2009
Happy Birthday Mr. President
Quando morreste o meu irmão fez-te esta pequenina homenagem com o título Thirty Forever.
A verdade é que já fazes 41: Cooooooooooooooooooooota!
Beijos meus, meu amor.
A verdade é que já fazes 41: Cooooooooooooooooooooota!
Beijos meus, meu amor.
Domingo, Abril 12, 2009
Sábado, Abril 11, 2009
quando for grande quero ter um blog de gente crescida. uma coisa planeada, com início e fim. e com um estilo, acho que é isso, um tom que atravesse. como este por exemplo! ainda não li muito mas parece-me bem...
quero ter um produto mais bem acabado digamos assim. esta coisa esquizófrenica até a mim me espanta: ai que a rapariga agora escolhe músicas do tempo da outra senhora, ai que lhe vai dando para a moral e bons costumes ou então vai ficando louca e dizendo palavrões feita carroceira.
e depois, acabar a noite passada em claro, partilhando risos tontos com a tv, aqui... is just plain stupid.
quero ter um produto mais bem acabado digamos assim. esta coisa esquizófrenica até a mim me espanta: ai que a rapariga agora escolhe músicas do tempo da outra senhora, ai que lhe vai dando para a moral e bons costumes ou então vai ficando louca e dizendo palavrões feita carroceira.
e depois, acabar a noite passada em claro, partilhando risos tontos com a tv, aqui... is just plain stupid.
Sexta-feira, Abril 10, 2009
Perdoem-me: quando começar a transcrever partes da bíblia é porque estou possuída.
O SERMÃO DA MONTANHA
É o mais famoso e importante discurso da Cristandade. O sermão definiu um código de conduta que continua a ser a base da moralidade ocidental.
Referido por Lucas no capítulo 6.º do seu Evangelho é, em princípio, transcrito integralmente nos capítulos 5.º a 7.º do Evangelho de Mateus, que o apresenta assim:
«Ao ver a multidão, subiu a um monte, e, depois de Se ter sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. Tomando então a palavra, começou a ensiná-los, dizendo:»
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
(...)
Ouviste que foi dito: "Olho por olho, e dente por dente". Eu digo-vos: Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. Se alguém te obrigara acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pede, e não voltes as costas a quem te pedir emprestado».
Ouvistes que foi dito: "Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo". Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem já os publicanos? E, se saudais somente os vossos irmãos que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Sede, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste.
(...)
Não julgueis para não serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Como ousas dizer ao teu irmão: "Deixa-me tirar o argueiro do teu olho", tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés, e, acometendo-vos, vos despedacem.»
É o mais famoso e importante discurso da Cristandade. O sermão definiu um código de conduta que continua a ser a base da moralidade ocidental.
Referido por Lucas no capítulo 6.º do seu Evangelho é, em princípio, transcrito integralmente nos capítulos 5.º a 7.º do Evangelho de Mateus, que o apresenta assim:
«Ao ver a multidão, subiu a um monte, e, depois de Se ter sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. Tomando então a palavra, começou a ensiná-los, dizendo:»
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
(...)
Ouviste que foi dito: "Olho por olho, e dente por dente". Eu digo-vos: Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. Se alguém te obrigara acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pede, e não voltes as costas a quem te pedir emprestado».
Ouvistes que foi dito: "Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo". Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem já os publicanos? E, se saudais somente os vossos irmãos que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Sede, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste.
(...)
Não julgueis para não serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Como ousas dizer ao teu irmão: "Deixa-me tirar o argueiro do teu olho", tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés, e, acometendo-vos, vos despedacem.»
Quarta-feira, Abril 08, 2009
desculpem-me a falta de sentido de humor mas para além de não ter medo, estou a ficar um bocado farta do bicho papão.
Segunda-feira, Abril 06, 2009
Sentenças/Sentences (2ª)
ao telefone com outra gaja (entenda-se, amiga):
- Porque nos últimos anos, e convenhamos, também nos anteriores, foram sempre os gajos que me deram com os pés e isso não faz sentido porque eu... bem... eu sou eu!
felizmente, do outro lado, a gaja concordou.
- Porque nos últimos anos, e convenhamos, também nos anteriores, foram sempre os gajos que me deram com os pés e isso não faz sentido porque eu... bem... eu sou eu!
felizmente, do outro lado, a gaja concordou.
Esta rapariga, tal como eu, era um bocado estúpida
mas como começo a ficar farta, e hoje está de chuva, vou mergulhar no aquário
Patsy Cline - Crazy
Patsy Cline - Crazy
Domingo, Abril 05, 2009
Sábado, Abril 04, 2009
while i'm awake
Quando eu sou eu, quando estou estou em mim, vivo noutros. Aceito-o pacificamente. Abraço essa maneira de ser. É debaixo da pele dos outros humanos que reside a felicidade, a amizade, o encontro, a entrega, o amor, e é lá que quero habitar.
Existiu um tempo onde só me encontrava em ti, mas tu não estás cá, not anymore, estás dentro de mim, és parte de mim, parte do património que tenho para partilhar com os outros. Não me permitirei esquecer-te. Hás-de doer-me sempre. A tua carne é a minha carne, os teus olhos são os meus olhos, as tuas veias as minhas veias, o teu sexo o meu sexo.
Tudo isto interessa e não tem, ao mesmo tempo, importância nenhuma. Só eu tenho que lidar com isso, a vida real não se compadece com presentes e passados e corre independentemente de nós.
Claro que às vezes é preciso perder algum tempo a desfragmentar: levanto-me e vou decapar uma porta, tirar a cera um móvel, pôr uma máquina a lavar, estender lençois, arranjar as sobrancelhas, novamente cortar a franja de uma forma esdrúxula, tratar dos extratos bancários, brincar com o computador, ouvir a mesma música até à exaustão. Coisas banais, manuais, úteis, automáticas. Coisas minhas. Dentro de portas.
Mas sei que um dia a vida, a tal vida real, apanha-me distraida e faz-me esquecer que há coisas que me escurecem: a deslembrança dos passos em falso. Descuidada e ainda intencionalmente avançarei sobre o abismo da existência rindo.
Existiu um tempo onde só me encontrava em ti, mas tu não estás cá, not anymore, estás dentro de mim, és parte de mim, parte do património que tenho para partilhar com os outros. Não me permitirei esquecer-te. Hás-de doer-me sempre. A tua carne é a minha carne, os teus olhos são os meus olhos, as tuas veias as minhas veias, o teu sexo o meu sexo.
Tudo isto interessa e não tem, ao mesmo tempo, importância nenhuma. Só eu tenho que lidar com isso, a vida real não se compadece com presentes e passados e corre independentemente de nós.
Claro que às vezes é preciso perder algum tempo a desfragmentar: levanto-me e vou decapar uma porta, tirar a cera um móvel, pôr uma máquina a lavar, estender lençois, arranjar as sobrancelhas, novamente cortar a franja de uma forma esdrúxula, tratar dos extratos bancários, brincar com o computador, ouvir a mesma música até à exaustão. Coisas banais, manuais, úteis, automáticas. Coisas minhas. Dentro de portas.
Mas sei que um dia a vida, a tal vida real, apanha-me distraida e faz-me esquecer que há coisas que me escurecem: a deslembrança dos passos em falso. Descuidada e ainda intencionalmente avançarei sobre o abismo da existência rindo.
Sexta-feira, Abril 03, 2009
Quando chegaste
não te perguntei nada. Tinhas apenas voltado e tudo era como dantes.
Mais tarde fiz as minhas birras, perguntei-te porque me tinhas deixado tanto tempo sem ti. Tanto tempo enganada e a cometer enganos.
Compreendi finalmente que tinhas levado contigo os teus discos porque no momento em que o carro se despenhou percebeste que tinhas que ir viver outra vida sem mim.
Sabia que te tinha visto. Várias pessoas sabiam que andavas por cá e optaram por não se intrometer: era uma escolha tua continuares morto.
Disseste-me que tinhas dormido com muitas mulheres e outros homens. Sujámo-nos ambos. E quando voltaste passámos a faze-lo juntos.
Continuamos imperfeitos mas o teu lugar é aqui. O nosso sítio é o mesmo. Pertencemos um ao outro, por isso voltaste e por isso te quero exactamente do mesmo modo infernal, infeliz e lógico que temos de estar.
Ao acordar sabia-me deitada incómoda neste sofá, era este sófa e este tempo. Antes de abrir os olhos senti-te ainda sentado debaixo das minhas pernas. No segundo seguinte lembrei-me que o caixão estava aberto e tu estavas lá, lindo, frio, morto em exibição.
Mais tarde fiz as minhas birras, perguntei-te porque me tinhas deixado tanto tempo sem ti. Tanto tempo enganada e a cometer enganos.
Compreendi finalmente que tinhas levado contigo os teus discos porque no momento em que o carro se despenhou percebeste que tinhas que ir viver outra vida sem mim.
Sabia que te tinha visto. Várias pessoas sabiam que andavas por cá e optaram por não se intrometer: era uma escolha tua continuares morto.
Disseste-me que tinhas dormido com muitas mulheres e outros homens. Sujámo-nos ambos. E quando voltaste passámos a faze-lo juntos.
Continuamos imperfeitos mas o teu lugar é aqui. O nosso sítio é o mesmo. Pertencemos um ao outro, por isso voltaste e por isso te quero exactamente do mesmo modo infernal, infeliz e lógico que temos de estar.
Ao acordar sabia-me deitada incómoda neste sofá, era este sófa e este tempo. Antes de abrir os olhos senti-te ainda sentado debaixo das minhas pernas. No segundo seguinte lembrei-me que o caixão estava aberto e tu estavas lá, lindo, frio, morto em exibição.
Quinta-feira, Abril 02, 2009
6 dias antes de morreres
6 dias antes de morreres fazias rádio.
6 dias antes de morreres batias punhetas ao som da porno chachada.
6 dias antes de morreres cozinhavas delícias.
6 dias antes de morreres zangavas-te comigo.
6 dias antes de morreres eras o meu melhor amigo.
5
4
3
2
1
...
Como a "tua" música é para ser ouvida sempre, aqui está ela.
Os vários programas de Gino a.k.a Plexus estão disponíveis directamente no seu castpost ou aqui mesmo, navegando na barra por baixo da imagem correspondente ao programa de 26 de Novembro de 2006.

6 dias antes de morreres batias punhetas ao som da porno chachada.
6 dias antes de morreres cozinhavas delícias.
6 dias antes de morreres zangavas-te comigo.
6 dias antes de morreres eras o meu melhor amigo.
5
4
3
2
1
...
Como a "tua" música é para ser ouvida sempre, aqui está ela.
Os vários programas de Gino a.k.a Plexus estão disponíveis directamente no seu castpost ou aqui mesmo, navegando na barra por baixo da imagem correspondente ao programa de 26 de Novembro de 2006.

Quarta-feira, Abril 01, 2009
Lost
Estamos num espaço labiríntico.
Eu, tu, um filho teu.
Procuramo-nos e perdemo-nos nos corredores cilindricos.
Estamos aflitos, não há tempo, não há dia, não há espaço exterior.
O menino deixa-nos em cuidados: Para além de nós existe ele que brinca, que foge aos perseguidores e nos escapa.
Nós... nós só queriamos encontrar-nos.
Eu, tu, um filho teu.
Procuramo-nos e perdemo-nos nos corredores cilindricos.
Estamos aflitos, não há tempo, não há dia, não há espaço exterior.
O menino deixa-nos em cuidados: Para além de nós existe ele que brinca, que foge aos perseguidores e nos escapa.
Nós... nós só queriamos encontrar-nos.
Segunda-feira, Março 30, 2009
Azul petróleo
She wore blue velvet
Bluer than velvet was the night
Softer than satin was the light
From the stars
She wore blue velvet
Bluer than velvet were her eyes
Warmer than May her tender sighs
Love was ours
Ours a love I held tightly
Feeling the rapture grow
Like a flame burning brightly
But when she left, gone was the glow of
Blue velvet
But in my heart there'll always be
Precious and warm, a memory
Through the years
And I still can see blue velvet
Through my tears
Bluer than velvet was the night
Softer than satin was the light
From the stars
She wore blue velvet
Bluer than velvet were her eyes
Warmer than May her tender sighs
Love was ours
Ours a love I held tightly
Feeling the rapture grow
Like a flame burning brightly
But when she left, gone was the glow of
Blue velvet
But in my heart there'll always be
Precious and warm, a memory
Through the years
And I still can see blue velvet
Through my tears
Sábado, Março 28, 2009
MO' HORIZONS - HIT THE ROAD JACK (PÉ NA ESTRADA)
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Oh baby não se engane, não me trate assim
O tempo é curto, fosse tão ruim
Pense com o coração e você vai entender,
Eu tô cansada desse drama,eu não aguento mais sofrer
A vida não pára, só passa
E o seu problema não está em mim,
E o seu problema não está em mim
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Você me maltrata, me chama não diz nada
Vou botar os pés no chão e seguir na estrada
Não pense que o destino é assim tão cruel
Na vida cada um representa o seu papel
Não perca seu tempo nessa confusão
Eu vou fazer as minhas malas e seguir com a decisão
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Não vou voltar nunca mais
Não vou voltar nunca mais
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Oh baby não se engane, não me trate assim
O tempo é curto, fosse tão ruim
Pense com o coração e você vai entender,
Eu tô cansada desse drama,eu não aguento mais sofrer
A vida não pára, só passa
E o seu problema não está em mim,
E o seu problema não está em mim
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Você me maltrata, me chama não diz nada
Vou botar os pés no chão e seguir na estrada
Não pense que o destino é assim tão cruel
Na vida cada um representa o seu papel
Não perca seu tempo nessa confusão
Eu vou fazer as minhas malas e seguir com a decisão
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Já tô com o pé na estrada
E não vou mais voltar
Não vou, não vou, não vou
Já tô com o pé na estrada e não vou mais voltar
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Eu não vou voltar nunca mais
Não vou voltar nunca mais
Não vou voltar nunca mais
Quinta-feira, Março 26, 2009
The Chordettes
Será que deus nosso senhor me perdoa por pôr no ar música tão depreciativa para as mulheres?
Terão acabado estas meninas os seus dias rodeadas de gatos, feitas cat ladies, ou um dia acordaram para a vida e perceberam que podiam ser a cat woman?
Terão acabado estas meninas os seus dias rodeadas de gatos, feitas cat ladies, ou um dia acordaram para a vida e perceberam que podiam ser a cat woman?
À maneira de Benamor Lhopes
A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.
A vida não é de escolhos.
É de escolhas.
Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
Com o relento de um sentimento?
Serei eu a tua escolha?
Abre os olhos e olha,
Que eu já me escolhi em ti!
Alexandre O'Neil
Este senhor O'Neil vai obrigar-me a comprar mais alguns livros que só vou poder ler no verão. Rai's parta a poesia!
É de abr'olhos.
A vida não é de escolhos.
É de escolhas.
Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
Com o relento de um sentimento?
Serei eu a tua escolha?
Abre os olhos e olha,
Que eu já me escolhi em ti!
Alexandre O'Neil
Este senhor O'Neil vai obrigar-me a comprar mais alguns livros que só vou poder ler no verão. Rai's parta a poesia!
Quarta-feira, Março 25, 2009
Para uma leitora
Estar apaixonado só é segurança, certeza, eternidade nas músicas do adolescente Richie Valens.
A música dele é adorável e eu também quero acreditar: por isso, quando tenho oportunidade, gosto de dançar a pares.
A música dele é adorável e eu também quero acreditar: por isso, quando tenho oportunidade, gosto de dançar a pares.
Terça-feira, Março 24, 2009
Segunda-feira, Março 23, 2009
algures no verão de 93
"Fizemo-lo juntos sob o sol, partilhámos a poesia, ainda que eu não tenha jeito para o fazer. É bom saber que existem amigos assim. AMIGOS!
(...) é bom ter-te aqui para se gostar, conversar, discutir, fazer poemas. Quero fazer mais destes poemas sem significado que significam tanto. Significam um dia com muito sol e vento num lugar nosso onde fizemos um poema nosso, só para nós.
******, quando crescer quero ser como tu.
Quero ter essa simplicidade de palavras e sentimentos que tu tens, que tu demonstras, não sei se tens. Quero saber ser amiga como tu, ter tempo para tudo e quero até sonhar (...).
Um dia vou saber fazer poemas como tu ou então vou escrever a minha prosa em forma de poesia para tu veres que também eu quero escrever (...)."
A dada altura o meu amigo deixou de fazer poemas comigo, deixou de dizer que gostava muito de mim e para sempre. Casou com uma colega arquitecta, mudou para um subúrbio ainda mais suburbano e perdi-lhe o rasto. Quando crescer já não quero ser como ele, no entanto... ele motivou este texto adolescente e só por isso já deve ter valido a pena.
(...) é bom ter-te aqui para se gostar, conversar, discutir, fazer poemas. Quero fazer mais destes poemas sem significado que significam tanto. Significam um dia com muito sol e vento num lugar nosso onde fizemos um poema nosso, só para nós.
******, quando crescer quero ser como tu.
Quero ter essa simplicidade de palavras e sentimentos que tu tens, que tu demonstras, não sei se tens. Quero saber ser amiga como tu, ter tempo para tudo e quero até sonhar (...).
Um dia vou saber fazer poemas como tu ou então vou escrever a minha prosa em forma de poesia para tu veres que também eu quero escrever (...)."
A dada altura o meu amigo deixou de fazer poemas comigo, deixou de dizer que gostava muito de mim e para sempre. Casou com uma colega arquitecta, mudou para um subúrbio ainda mais suburbano e perdi-lhe o rasto. Quando crescer já não quero ser como ele, no entanto... ele motivou este texto adolescente e só por isso já deve ter valido a pena.
Sexta-feira, Março 20, 2009
Quinta-feira, Março 19, 2009
conversas com um homem morto
Releio-nos.
Baby, continua a dar-me prazer conversar contigo. Estás vivo nas nossas conversas banais. Nem sequer são só banais, são espirituosas, são sarcásticas, ou picadas, crispadas, dolorosas mas também banais. A ementa do jantar, os beijos na pila, as palmadas no cú, a troca de carros, os sorrisos angulares. Are u there hun? :>
Não me dói: continuas a fazer-me sorrir, a oferecer-me gargalhadas e a comover-me, tal como na primeira vez. Lamento simplesmente não dar continuidade ao log gravado no teu disco rígido. (ai! a expressão disco rígido dá para tantas linhas de palhaçada, n'est ce pas baby?)
Sei que que que me amas, sei que me amavas apesar das apostas perdidas, das escolhas pouco convictas e da nossa lucidez final. Por isso deixei, no cubículo frio onde habitas agora, esta música. Perdoa-me porque continuo a errar.
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nina simone - my baby just cares for me
Baby, continua a dar-me prazer conversar contigo. Estás vivo nas nossas conversas banais. Nem sequer são só banais, são espirituosas, são sarcásticas, ou picadas, crispadas, dolorosas mas também banais. A ementa do jantar, os beijos na pila, as palmadas no cú, a troca de carros, os sorrisos angulares. Are u there hun? :>
Não me dói: continuas a fazer-me sorrir, a oferecer-me gargalhadas e a comover-me, tal como na primeira vez. Lamento simplesmente não dar continuidade ao log gravado no teu disco rígido. (ai! a expressão disco rígido dá para tantas linhas de palhaçada, n'est ce pas baby?)
Sei que que que me amas, sei que me amavas apesar das apostas perdidas, das escolhas pouco convictas e da nossa lucidez final. Por isso deixei, no cubículo frio onde habitas agora, esta música. Perdoa-me porque continuo a errar.
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nina simone - my baby just cares for me
reboot
deitei-me com o corpo em chagas.
a pele em escamas, o peito ferido pelo espartilho que o oprime, as coxas violetas e exangues, os pés em fogo. espancada pelo dia, estuprada: exausta.
passei a noite entre deformados, ensanguentados e humilhados. a violência primária que nos permite desfragmentar o sistema interior.
hoje tive um dos melhores acordares dos últimos meses. dorida, calma, morna, desperta.
a pele em escamas, o peito ferido pelo espartilho que o oprime, as coxas violetas e exangues, os pés em fogo. espancada pelo dia, estuprada: exausta.
passei a noite entre deformados, ensanguentados e humilhados. a violência primária que nos permite desfragmentar o sistema interior.
hoje tive um dos melhores acordares dos últimos meses. dorida, calma, morna, desperta.
Terça-feira, Março 17, 2009
irónico, irónico era...
que tropeçasses e partisses o nariz!
e eu saia rapidamente da piscina, deitava-te a língua de fora e corria para o colo de alguém.
e eu saia rapidamente da piscina, deitava-te a língua de fora e corria para o colo de alguém.
outra vez a puta da poesia
Adeus Português
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Alexandre O'Neill
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Alexandre O'Neill
Domingo, Março 15, 2009
o meu silêncio
um dia daqueles só meus. feitos para mim.
sol nos vidros molhados, a casa limpa, vazia.
a luz lá foram sem a excitação da saída: quero estar aqui sozinha.
a penumbra a chegar lentamente ao meu sono e o sono vazio de sonhos. a cabeça quase vazia de ideias.
sair ao fim do dia, o ar ainda cálido, os pés descalços. a cidade está silenciosa e a praça desprende-se de odores primaveris.
voltar a casa e saber com certeza que ninguém me perturbará.
sol nos vidros molhados, a casa limpa, vazia.
a luz lá foram sem a excitação da saída: quero estar aqui sozinha.
a penumbra a chegar lentamente ao meu sono e o sono vazio de sonhos. a cabeça quase vazia de ideias.
sair ao fim do dia, o ar ainda cálido, os pés descalços. a cidade está silenciosa e a praça desprende-se de odores primaveris.
voltar a casa e saber com certeza que ninguém me perturbará.
Sábado, Março 14, 2009
E se te digo: na Azambuja meu amor, a Ford é na Azambuja - é porque desejo amar-te mais, mesmo sabendo este é o dia em que me quererás menos. A natureza que me pariu é de essência amável.
Não sei ser de outra forma e também não quero. Mas pergunto-me... pergunto sempre porquê.
Procuro modos de desgostar-me de ti, busco o desprezo e ainda assim encontro compaixão. Dói-me imaginar-te perturbado... uma dor fininha, uma revolta ansiosa e ainda assim falo, como, ando, sorrio, trabalho, carrego, arrumo e sonho: com futuros solares, com presentes satisfatórios.
E depois não há palavras, nem elas adiantam, não há acções possíveis, nem gestos, porque não há quem as ouça nem quem os receba.
Não sei ser de outra forma e também não quero. Mas pergunto-me... pergunto sempre porquê.
Procuro modos de desgostar-me de ti, busco o desprezo e ainda assim encontro compaixão. Dói-me imaginar-te perturbado... uma dor fininha, uma revolta ansiosa e ainda assim falo, como, ando, sorrio, trabalho, carrego, arrumo e sonho: com futuros solares, com presentes satisfatórios.
E depois não há palavras, nem elas adiantam, não há acções possíveis, nem gestos, porque não há quem as ouça nem quem os receba.
Quinta-feira, Março 12, 2009
Segunda-feira, Março 09, 2009
as mulheres sós, as mulheres amargas e as mulheres honradas
Há solidões de que não podemos esquivar-nos. E se as pessoas são más e absurdas, procuro entre elas outros cristãos.
A amargura é a doença dos seres solitários. Daqueles que desistiram de encontrar.
Eu sou a busca e o mel. Por isso nunca fui considerada uma mulher honrada.
Pois que se foda!
A amargura é a doença dos seres solitários. Daqueles que desistiram de encontrar.
Eu sou a busca e o mel. Por isso nunca fui considerada uma mulher honrada.
Pois que se foda!
Domingo, Março 01, 2009
Terça-feira, Fevereiro 24, 2009
Amor é Traição, Amor é Angústia, Amor é Pecado, Amor é Egoísmo, Amor é Esperança, Amor é Dor, Amor é Morte. O que é o Amor?
Sábado, Fevereiro 21, 2009
uma noite em 5 episódios
Uma fila de buffet. Nessa fila negam-nos comida, cobram-nos mais, roubamos qualquer coisa. Sabemos que existem outras salas onde os bolos são feitos com ovos verdadeiros mas nesta sala enorme de congressos, campo de férias, campo de concentração, a comida é composta de pseudo-alimentos e toda a gente faz o melhor que pode para se desenrascar.
*
É de noite e num longo corredor de madeira estão expostos quadros. Somos encarregues de os pintar a rolo. As cores são claras: rosa, laranja quase fluorescente. O ditador irá eleger o seu favorito esta noite. Devemos ser rápidos.
A vencedora habitual deste prémio enfurece-se. Aparentemente cometemos um erro. O seu quadro não deveria ter sido profanado. De qualquer forma projectamos sobre ele luz, cores, e à medida que estas se sucedem é visível através da tinta clara um rosto. Um retrato. O ditador.
*
Embrenhamo-nos mais fundo no campo, na casa, na instituição. Os percursos são interiores e também exteriores. Na rampa alcatroada ao ar livre ficamos na fila. Voltámos ao magote de gente que se atropela para o buffet. Há transexuais, gente deformada, avisto o nosso amigo cuja doença degenerativa torceu à cadeira de rodas, outros, estranhos e conhecidos, sorrisos e olhares ameaçadores. Julgo que nada disto é verdadeiro, parece-me que estão todos desesperados. Na bicha sou acusada de roubar um ramo de flores destinado, e pago a peso de ouro, a outra pessoa, sou acusada de tirar uma sobremesa que não é a estipulada pelo menu a que tenho direito. No fim roubo a sobremesa mais cara e agonio sob peso do pseudo-creme doce.
*
No fim de um dos corredores de quartos e balneários, surge a gruta aquática onde está aquela família (a nossa família?) e os bebés estão estranhos. Os bebés são estranhos. Tomo um nos meus braços e vamos nadar. Os olhos dele estão já mortos e exige submergir para sempre. Procuro ganhar tempo, oferecer-lhe contacto com o seu irmão humano, dar-lhe de comer. À medida que o dia declina sabemos que a transformação é inevitável e visível na textura da sua pele que se torna a cada minuto mais lustrosa e escorregadia e no seu corpo inchado, disforme, inumano.
Liberto-o e vemo-lo deslizar na massa de água negra. Não hesita nunca porque essa é a sua natureza e esse será também o seu fim.
*
É necessário desmontar a exposição, os quadros são agora extensos painéis no relvado húmido, verde, noite. Está em causa contrabandear a madeira e fugir daquela prisão. As tábuas são imensas, todos os painéis estão escorados com pesadíssimas vigas maciças e o camião é carregado clandestinamente por várias pessoas. A contrapartida é pintarmos 6 outdoors cobrindo a publicidade neles exibidos. Ao longo da estrada, montados nas pranchas roubadas, vamos cruzando o trabalho feito pelo primeiro grupo de fugitivos. Tememos pela nossa segurança: a pintura é humilhante, são visíveis os fantasmas daquilo que ali constava anteriormente e isso coloca-nos ainda mais em perigo.
Sei que é apenas um rapaz, mas permito que o desconhecido sentado atrás de mim envolva os seus braços à volta do meu corpo e me masturbe por cima da roupa. Prefiro não lhe conhecer o rosto.
*
É de noite e num longo corredor de madeira estão expostos quadros. Somos encarregues de os pintar a rolo. As cores são claras: rosa, laranja quase fluorescente. O ditador irá eleger o seu favorito esta noite. Devemos ser rápidos.
A vencedora habitual deste prémio enfurece-se. Aparentemente cometemos um erro. O seu quadro não deveria ter sido profanado. De qualquer forma projectamos sobre ele luz, cores, e à medida que estas se sucedem é visível através da tinta clara um rosto. Um retrato. O ditador.
*
Embrenhamo-nos mais fundo no campo, na casa, na instituição. Os percursos são interiores e também exteriores. Na rampa alcatroada ao ar livre ficamos na fila. Voltámos ao magote de gente que se atropela para o buffet. Há transexuais, gente deformada, avisto o nosso amigo cuja doença degenerativa torceu à cadeira de rodas, outros, estranhos e conhecidos, sorrisos e olhares ameaçadores. Julgo que nada disto é verdadeiro, parece-me que estão todos desesperados. Na bicha sou acusada de roubar um ramo de flores destinado, e pago a peso de ouro, a outra pessoa, sou acusada de tirar uma sobremesa que não é a estipulada pelo menu a que tenho direito. No fim roubo a sobremesa mais cara e agonio sob peso do pseudo-creme doce.
*
No fim de um dos corredores de quartos e balneários, surge a gruta aquática onde está aquela família (a nossa família?) e os bebés estão estranhos. Os bebés são estranhos. Tomo um nos meus braços e vamos nadar. Os olhos dele estão já mortos e exige submergir para sempre. Procuro ganhar tempo, oferecer-lhe contacto com o seu irmão humano, dar-lhe de comer. À medida que o dia declina sabemos que a transformação é inevitável e visível na textura da sua pele que se torna a cada minuto mais lustrosa e escorregadia e no seu corpo inchado, disforme, inumano.
Liberto-o e vemo-lo deslizar na massa de água negra. Não hesita nunca porque essa é a sua natureza e esse será também o seu fim.
*
É necessário desmontar a exposição, os quadros são agora extensos painéis no relvado húmido, verde, noite. Está em causa contrabandear a madeira e fugir daquela prisão. As tábuas são imensas, todos os painéis estão escorados com pesadíssimas vigas maciças e o camião é carregado clandestinamente por várias pessoas. A contrapartida é pintarmos 6 outdoors cobrindo a publicidade neles exibidos. Ao longo da estrada, montados nas pranchas roubadas, vamos cruzando o trabalho feito pelo primeiro grupo de fugitivos. Tememos pela nossa segurança: a pintura é humilhante, são visíveis os fantasmas daquilo que ali constava anteriormente e isso coloca-nos ainda mais em perigo.
Sei que é apenas um rapaz, mas permito que o desconhecido sentado atrás de mim envolva os seus braços à volta do meu corpo e me masturbe por cima da roupa. Prefiro não lhe conhecer o rosto.
Saber viver é vender a alma ao diabo
O meu amigo J*** ofereceu-me no Natal de 2007 um poema, a mim e mais alguns amigos. Foi assim que ele introduziu esta prenda.
"Nesta quadra horrível e solitária, um poema, público, para cada um de vós...".
Este foi o que me calhou e sei, porque o conheço, que não foi simplesmente o que me "calhou" e por isso agradeço-lhe.
Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O'Neill
"Nesta quadra horrível e solitária, um poema, público, para cada um de vós...".
Este foi o que me calhou e sei, porque o conheço, que não foi simplesmente o que me "calhou" e por isso agradeço-lhe.
Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O'Neill
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009
Domingo, Fevereiro 15, 2009
E eis que voltaram as filas imensas para a casa de banho. Espaços amplos, modernos, cheios de gente. Um imenso museu talvez. Um enorme centro comercial de luxo. Qualquer coisa, não sei. Lá dentro labirintos de compartimentos e portas fechadas, ou portas abertas com fechaduras desengonçadas, muitas gabines ocupadas, poucas vagas. E as tentativas começam. Uma porta e tudo é absolutamente imundo, àgua, fezes, urina. Outra o porta: cenário de latrina, cenário de campo de concentração, em tudo semelhante a um festival de verão na sujidade mas muito mais triste, angustiante, sem alternativa. E não é que a vontade se faça sentir, mas tenho de continuar a tentar encontrar um sitio mais limpo, mais luminoso. Já nem sei sequer onde é a saida, já nada lembra que estamos num espaço dentro de um espaço moderno, amplo e luxuoso. As pessoas esperam frente aos compartimentos, as pessoas movimentam-se de um lado para o outro sem razão aparente, as pessoas entram. Concluo que não encontrarei nada melhor. Procuro apenas agora o menos mau. O menos mau é sórdido, talvez não seja sequer o menos mau, talvez seja igualmente mau. Água, mijo, merda. Procuro não tocar em nada, procuro não me molhar, procuro não deixar que o meu corpo se encoste às paredes que transpiram excrementos. Sou obrigada a reparar que existem duas retretes no mesmo compartimento. A privacidade não existe. Sujo-me. Saio. Acordo antes de chegar ao espaço amplo, moderno e luxuoso.
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009
Tontices!
Vinha aqui para "postar" uma música muito bonitinha mas o castpost fintou-me. Como sou burrinha não conheço outro modo de o fazer, enfim...
Dito isto, ocorreu-me uma ideia bestial agora mesmo: "as mulheres só deviam apaixonar-se por outras mulheres". Pensei-o e um sorriso surgiu-me na face sem que o pudesse evitar. Que tonta sou!
Dito isto, ocorreu-me uma ideia bestial agora mesmo: "as mulheres só deviam apaixonar-se por outras mulheres". Pensei-o e um sorriso surgiu-me na face sem que o pudesse evitar. Que tonta sou!
Sábado, Fevereiro 07, 2009
Quando a ficção e a realidade se tornam demasiado próximas, a ilusão e a esperança se confundem, as palavras adquirem por vezes vida própria. Por tudo isso, peço desculpa.
as palavras que nunca me dirás
Esta noite vi-me ao espelho
Bebi licor de amoras
Calcei botas douradas
Cantei línguas estranhas
Porque amanhã volto a partir
Quero perder dinheiro
Jogar tudo o que ganho
Acender muitas velas
Pingar limão nas ostras
E de manhã não ver ninguém
Esta noite eu conto estrelas
Volto a dançar na praia
Enrolo-me em cetim
Conheço os versos raros
E amanhã fechei a mala
Aposto o que não tenho
Que me vais trazer rosas
Vais tocar-me na pele
Adormecer sem pressa
E de manhã chamar por mim
Quero entregar-te o mundo
Escrever-te uma carta
Menina do violino
Toca à minha janela
E de manhã podes dormir
Esta noite eu pago tudo
E acendo paus de incenso
Perfumo-te os cabelos
Vou deixar-te os meus livros
E de manhã já cá não estou
Clara Pinto Correia in "Canções que já não existem"
Bebi licor de amoras
Calcei botas douradas
Cantei línguas estranhas
Porque amanhã volto a partir
Quero perder dinheiro
Jogar tudo o que ganho
Acender muitas velas
Pingar limão nas ostras
E de manhã não ver ninguém
Esta noite eu conto estrelas
Volto a dançar na praia
Enrolo-me em cetim
Conheço os versos raros
E amanhã fechei a mala
Aposto o que não tenho
Que me vais trazer rosas
Vais tocar-me na pele
Adormecer sem pressa
E de manhã chamar por mim
Quero entregar-te o mundo
Escrever-te uma carta
Menina do violino
Toca à minha janela
E de manhã podes dormir
Esta noite eu pago tudo
E acendo paus de incenso
Perfumo-te os cabelos
Vou deixar-te os meus livros
E de manhã já cá não estou
Clara Pinto Correia in "Canções que já não existem"
Adenda
Faz de conta que é só fechar a porta
E o mundo fica do outro lado
Agora eu sou a mais linda da festa
E tu és mesmo o meu namorado
Eu só quero beijar-te mais vezes
Faz de conta que vamos ter filhos
Numa casinha à beira da estrada
Que até tinha lagos com junquilhos
Hoje eu quero dizer para sempre
E viver a pensar só em ti
Faz de conta que é mesmo verdade
Que amanhã ainda estamos aqui
Posso olhar-te de frente nos olhos
Acreditar em tudo o que dizes
E enquanto durar esta noite
Faz de conta que vamos ser felizes
Clara Pinto Correia (estranhamente!) in "Canções que já não existem"
E o mundo fica do outro lado
Agora eu sou a mais linda da festa
E tu és mesmo o meu namorado
Eu só quero beijar-te mais vezes
Faz de conta que vamos ter filhos
Numa casinha à beira da estrada
Que até tinha lagos com junquilhos
Hoje eu quero dizer para sempre
E viver a pensar só em ti
Faz de conta que é mesmo verdade
Que amanhã ainda estamos aqui
Posso olhar-te de frente nos olhos
Acreditar em tudo o que dizes
E enquanto durar esta noite
Faz de conta que vamos ser felizes
Clara Pinto Correia (estranhamente!) in "Canções que já não existem"
Segunda-feira, Janeiro 05, 2009
Segunda-feira, Novembro 03, 2008
holding my breath
Saí rapidamente da piscina, esfreguei-me energicamente à toalha turca e fui pela vida apressadamente. Mais egoista que isto impossível.
Tenho nostalgia da existência debaixo d'água. Sustenho a respiração até ao momento em que voltarei ao estado líquido e reflexivo a que me habituei. Agora tenho pressa. Na piscina sinto-me, por vezes, demasiado só.
Tenho nostalgia da existência debaixo d'água. Sustenho a respiração até ao momento em que voltarei ao estado líquido e reflexivo a que me habituei. Agora tenho pressa. Na piscina sinto-me, por vezes, demasiado só.
Terça-feira, Setembro 30, 2008
sobre o silêncio
não estou calada. grito.
a bigorna é boa, não nos confundamos. é a realidade desejada. não me queixo. não é, no entanto, banal.
entretanto, o meu globo ocular, sangrando fora da sua órbita, vê ainda todos os pores-de-dia do mundo.
a bigorna é boa, não nos confundamos. é a realidade desejada. não me queixo. não é, no entanto, banal.
entretanto, o meu globo ocular, sangrando fora da sua órbita, vê ainda todos os pores-de-dia do mundo.
Terça-feira, Setembro 23, 2008
A puta da realidade
Se calhar é sina. Se calhar é destino, karma, maldição ou benção. Existirão porventura outras pessoas como eu. Não conheço nenhuma.
A realidade, a mim, quando chega é tal qual uma bigorna lançada do quarto andar. Esmaga-me o crânio e tira-me o ar.
Ela é, por isso, muito mais fantástica do que qualquer ficção. E as ambições de banalidade, muitas vezes, não passam disso: ambições.
A realidade, a mim, quando chega é tal qual uma bigorna lançada do quarto andar. Esmaga-me o crânio e tira-me o ar.
Ela é, por isso, muito mais fantástica do que qualquer ficção. E as ambições de banalidade, muitas vezes, não passam disso: ambições.
Sexta-feira, Setembro 12, 2008
porque eras o amor da minha vida te cito. sabias tudo e não cumprias nada. e mesmo assim amei-te. ficcionavas e dizias verdades que te iam no coração
ATENTO
- Não me disseste nada sobre a minha saia nova. Verde alface, justa, curta. Não te lembras nunca das nossas conversas, do nome das pessoas de que te falo, dos sítios onde vou com elas. Esqueces-te de acordar nos dias em que te peço para vires ter comigo e almoçar. Sinto-me disponível para os outros. O que queres que te diga mais? Nunca comentas o meu novo penteado, as unhas pintadas, a depilação feita a custo. Não apareceste sequer na vernissage da minha exposição. Toda a gente a perguntar por ti e eu sem saber o que dizer. Pouca gente das minhas relações te conhece, ou, se te conhece, raramente te vê ao meu lado. Quero sentir carinhos em público, mostrar-me amada, desejada. Passamos o tempo enfiados num buraco escuro e fumarento. Vou ter contigo, fodemos, dormimos, eu acordo e vou trabalhar e tu ficar ali, estendido nu nos lençóis marcados de sangue de resquícios do período. A ti basta-te foder-me o cu, apalpar-me as mamas e saber que mais ninguém o faz. Mas eu quero mais! Quero um projecto de vida, ser infiel por prazer e não por consequência. Quero a minha casinha onde são os outros que levam as cuecas, a escova de dentes e a roupa para o dia seguinte. Um espaço para as minhas coisas, os meus livros, a minha roupa e deixar de parecer uma nómada em tua função. Percebes?
- Percebo. Para mitigar esta nossa desavença, distancia ou disfunção (ou seja lá o que lhe queiras chamar) vou deixar o meu trabalho de guarda-nocturno. Eu estou atento.…
“de tudo ao meu amor serei atento. E antes e com tal zelo e sempre e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se encante o meu pensamento.”Vinicius de Moraes
Egínio Alberto dos Santos Teixeira (14/04/1968 - 03/12/2006)
- Não me disseste nada sobre a minha saia nova. Verde alface, justa, curta. Não te lembras nunca das nossas conversas, do nome das pessoas de que te falo, dos sítios onde vou com elas. Esqueces-te de acordar nos dias em que te peço para vires ter comigo e almoçar. Sinto-me disponível para os outros. O que queres que te diga mais? Nunca comentas o meu novo penteado, as unhas pintadas, a depilação feita a custo. Não apareceste sequer na vernissage da minha exposição. Toda a gente a perguntar por ti e eu sem saber o que dizer. Pouca gente das minhas relações te conhece, ou, se te conhece, raramente te vê ao meu lado. Quero sentir carinhos em público, mostrar-me amada, desejada. Passamos o tempo enfiados num buraco escuro e fumarento. Vou ter contigo, fodemos, dormimos, eu acordo e vou trabalhar e tu ficar ali, estendido nu nos lençóis marcados de sangue de resquícios do período. A ti basta-te foder-me o cu, apalpar-me as mamas e saber que mais ninguém o faz. Mas eu quero mais! Quero um projecto de vida, ser infiel por prazer e não por consequência. Quero a minha casinha onde são os outros que levam as cuecas, a escova de dentes e a roupa para o dia seguinte. Um espaço para as minhas coisas, os meus livros, a minha roupa e deixar de parecer uma nómada em tua função. Percebes?
- Percebo. Para mitigar esta nossa desavença, distancia ou disfunção (ou seja lá o que lhe queiras chamar) vou deixar o meu trabalho de guarda-nocturno. Eu estou atento.…
“de tudo ao meu amor serei atento. E antes e com tal zelo e sempre e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se encante o meu pensamento.”Vinicius de Moraes
Egínio Alberto dos Santos Teixeira (14/04/1968 - 03/12/2006)
Quarta-feira, Setembro 10, 2008
chatting with a girlfriend...
"o amor não resolve tudo, por isso é preciso trabalho para limpar os cantos à casa"
Sim, menina, tudo muito bem limpinho, se não, já sabes! liga-me!
Sim, menina, tudo muito bem limpinho, se não, já sabes! liga-me!
Segunda-feira, Setembro 08, 2008
das escolhas...
há escolhas que se tornam fáceis a golpes na traqueia
há escolhas que são apenas naturais
há navalhas que nos abrem as carótidas, outras ceifam simplesmente papoilas
existem muros que são diques outros que são muralhas
há escolhas que não são escolhas e outras que não se fazem.
Amanhã é sempre o primeiro dia do resto da minha vida e lá não há lugar a desilusões.
[porque eu não quero]
há escolhas que são apenas naturais
há navalhas que nos abrem as carótidas, outras ceifam simplesmente papoilas
existem muros que são diques outros que são muralhas
há escolhas que não são escolhas e outras que não se fazem.
Amanhã é sempre o primeiro dia do resto da minha vida e lá não há lugar a desilusões.
[porque eu não quero]
Domingo, Setembro 07, 2008
sabia que estavas de passagem e sabia que passavas incógnito. eu sabia e tu sabias mas não tinhamos a certeza se o outro saberia que sabiamos.
apesar disso sorria-te muito e tentava dizer-te tudo nas poucas palavras que tinha disponiveis. queria que me conhecesses e por isso inundava-te de imagens familiares e sujeitava-te à familiaridade da minha casa. eu queria tanto.
no entanto continuavas efémero.
hoje entraste pela primeira vez nos meus sonhos. passado exactamente o tempo suficiente para isso aconteça: muito.
apesar disso sorria-te muito e tentava dizer-te tudo nas poucas palavras que tinha disponiveis. queria que me conhecesses e por isso inundava-te de imagens familiares e sujeitava-te à familiaridade da minha casa. eu queria tanto.
no entanto continuavas efémero.
hoje entraste pela primeira vez nos meus sonhos. passado exactamente o tempo suficiente para isso aconteça: muito.
A princípio é simples, anda-se sozinho mas dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo. Diz-se do passado que está moribundo e então luta-se por tudo o que se leva a peito. Enfim duma escolha faz-se um desafio e bebe-se a coragem até dum copo vazio.
… e vem-nos à memória uma frase batida : hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
… e vem-nos à memória uma frase batida : hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
O PRIMEIRO DIA
A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Sérgio Godinho
Quinta-feira, Setembro 04, 2008
16 de Agosto 2008 - tarde
A caminho do horizonte

(3) Fotos de Ana Conde
(2) Fotos Ana Conde
Elogio ao Horizonte, Eduardo Chillida
Gijon, Espanha
Terça-feira, Setembro 02, 2008
ontem ao fim da tarde.
"Sinto-me estúpida de me sentir assim.... parva!"
E hoje o sentimento perdura :-)
E hoje o sentimento perdura :-)
seventeen again...
Não há nada mais revigorante que corte de cabelo meio freaketon! Se não fiquei mais bonita (porque isso é quase impossível!) fiquei certamente mais leve.
I'm happy!
I'm happy!
Segunda-feira, Setembro 01, 2008
Cinema Asiático na Rua do Almada

O SOS RACISMO Porto vai de vento em popa e agora regressado do sol (se é que houve sol este verão) volta também às iniciativas que vai organizando.
Para dar algum dinamismo à Sede (Rua do Almada, 245, direito, 3º direito) vão ser exibidos todos os domingos (7,14,21,28) de Setembro, às 17h00, filmes asiáticos.
O primeiro é "Dolls" de Takeshi Kitano e podem conhecer a sinopse aqui.
Eu vou! E tu?
Domingo, Agosto 31, 2008
Da inveja...
Ele tem o crânio redondo. Ela tem o ventre firme.
Fala-me de arquitectura e eu respondo-lhe como deve ser. Que aquilo não era para mim. Que não gosto da competitividade. Que sou mais feliz assim.
Falo-lhe, porque vem a propósito, de ti e sei que ele me lamenta. Recordo os meus sonhos. Revejo-os e sinto que são exactamente os mesmos.
Fala-me de arquitectura e eu respondo-lhe como deve ser. Que aquilo não era para mim. Que não gosto da competitividade. Que sou mais feliz assim.
Falo-lhe, porque vem a propósito, de ti e sei que ele me lamenta. Recordo os meus sonhos. Revejo-os e sinto que são exactamente os mesmos.
Respiro apesar de. Não respiro ainda.
Eu sou [e não sabia] mais do que nós. Eu sou muito mais que eu. E sou completa ainda.
Serei mais feliz se. Farei...
Eu sou [e não sabia] mais do que nós. Eu sou muito mais que eu. E sou completa ainda.
Serei mais feliz se. Farei...
Sábado, Agosto 30, 2008
oxigénio
Quando respiravas à noite o meu corpo respirava contigo.
as minhas coxas nas tuas coxas (o contacto com a parte interior dos teus joelhos)
o meu ventre nas tuas nádegas,
o meu peito nas tuas costas
e o teu rumorejar fazia-se brisa suave, um silêncio vivo.
Porque o meu corpo fazia parte do teu sono, porque nos tocávamos sempre mesmo quando os sonhos nos afastavam: a tua mão na minha anca, o teu pé enlaçado no meu, as tuas costas contra as minhas.
Tu exalavas o meu hálito nocturno, eu inspirava o teu corpo e agora falta-me o ar.
[hoje à noite deitei-me e disse]
expirar inspirar
as minhas coxas nas tuas coxas (o contacto com a parte interior dos teus joelhos)
o meu ventre nas tuas nádegas,
o meu peito nas tuas costas
e o teu rumorejar fazia-se brisa suave, um silêncio vivo.
Porque o meu corpo fazia parte do teu sono, porque nos tocávamos sempre mesmo quando os sonhos nos afastavam: a tua mão na minha anca, o teu pé enlaçado no meu, as tuas costas contra as minhas.
Tu exalavas o meu hálito nocturno, eu inspirava o teu corpo e agora falta-me o ar.
[hoje à noite deitei-me e disse]
expirar inspirar
16 de Agosto 2008
Ao que parece, isto:
Catedral de León
Inspirou isto:
MUSAC (Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León)
Fotos de Ana Conde
León, Asturias, Espanha
Sexta-feira, Agosto 29, 2008
Canso-me. Ranjo os dentes. Ocupo-me.
Cumpro.
Falho.
Iludo-me e sorrio. Sorrio uma vez mais. Sou útil.
Constranjo-me. Contraio-me. Encontro com facilidade os limites.
Só se é verdadeiramente feliz quando se incandesce qual meteorito ao atravessar a barreira da atmosfera. Entrar por ti adentro.
Só se é verdadeiramente feliz quando se repousa. Ficar dentro de ti.
Cumpro.
Falho.
Iludo-me e sorrio. Sorrio uma vez mais. Sou útil.
Constranjo-me. Contraio-me. Encontro com facilidade os limites.
Só se é verdadeiramente feliz quando se incandesce qual meteorito ao atravessar a barreira da atmosfera. Entrar por ti adentro.
Só se é verdadeiramente feliz quando se repousa. Ficar dentro de ti.
Quinta-feira, Agosto 28, 2008
Terça-feira, Agosto 26, 2008
Sexta-feira, Agosto 22, 2008
3 terça junho 08
os dias marcados no calendário são apenas isso. dias marcados no calendário. esforçamo-nos por reter informação datável nas nossas cabeças: quando, aniversários, metas e depois, no fim? que interesse é que isso tem? que importa se alguém nos escreve a biografia cronologicamente exacta?
Que se foda a exactidão e a certeza e a segurança e a lógica.
o tempo nas cabeças é emocional, irracional e a maior parte das vezes isso é mais do que suficiente. Quando não é, podemos sempre mentir.
[verão quente imaginado num ano esquecido nas páginas do calendário]
Que se foda a exactidão e a certeza e a segurança e a lógica.
o tempo nas cabeças é emocional, irracional e a maior parte das vezes isso é mais do que suficiente. Quando não é, podemos sempre mentir.
[verão quente imaginado num ano esquecido nas páginas do calendário]
Sexta-feira, Agosto 15, 2008
Pais Vasco
Vou visitar a minha tia a Marrocos,
HipHop
Vou visitar a minha tia a Marrocos,
HipHop
Visitar a minha tia
Visitar a minha tia
Visitar a minha tia
A Marrocos
HipHop
A little vacation non sense
HipHop
Vou visitar a minha tia a Marrocos,
HipHop
Visitar a minha tia
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A little vacation non sense
Terça-feira, Agosto 12, 2008
imagens persistentes
uma coxa, a tua.
um carro, o teu.
a pressão da coxa contra o volante.
desviei o olhar mas a imagem persiste.
um carro, o teu.
a pressão da coxa contra o volante.
desviei o olhar mas a imagem persiste.
Explicação da ausência
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
e a saudade é tudo ser igual.
Daniel Faria - Explicação das árvores e outros animais.
in Poesia das Edições Quasi
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
e a saudade é tudo ser igual.
Daniel Faria - Explicação das árvores e outros animais.
in Poesia das Edições Quasi
Le crime parfait
J'ai regardé mes mains
Me demandant jamais si
Elles
Ont tué
Me demandant
Qui
Mes main-là
Quand
Ces mains-ci
Où
Me demandant
Si jamais
Je ne sais honnêtement
Répondre
Louis Aragon (1897-1982)
in Rouxinol do Mundo de Manuel Alegre (selecção e tradução) aqui na versão original porque este francês até eu entendo e sinceramente era mais bonito assim.
Me demandant jamais si
Elles
Ont tué
Me demandant
Qui
Mes main-là
Quand
Ces mains-ci
Où
Me demandant
Si jamais
Je ne sais honnêtement
Répondre
Louis Aragon (1897-1982)
in Rouxinol do Mundo de Manuel Alegre (selecção e tradução) aqui na versão original porque este francês até eu entendo e sinceramente era mais bonito assim.
Farai un vers / Farei um poema
Farei um poema de puro nada
nem de mim nem de ninguém,
nem juventude nem amada,
nem outro alguém,
só que andei a trová-lo
dormindo sobre um cavalo.
Não sei a hora em que fui nado,
não sou alegre nem irado,
nem reservado nem estranho,
culpa não tenho,
que deste modo fui fadado
de noite numa montanha.
Amada tenho, não sei quem é:
que nunca a vi, por minha fé;
não fui cortês nem descortês
e não me importa:
que nunca tive normando nem francês
dentro da porta.
Quero-lhe muito e nunca a vi;
e nem favor ou desfavor eu tiro dela;
pouco me importa se não está aqui;
nem sequer presta:
sei de outra mais gentil e que é mais bela,
melhor do que esta.
Não sei sequer onde ela habita,
se na montanha ou na planície;
o mal que ela me fez eu não o disse,
calado estou;
Que ela aqui esteja é uma desdita,
e assim me vou.
Fiz um poema não sei de quê;
e vou mandá-lo para quem
há-de enviá-lo para outrem
a Poitiers,
o qual me enviará de sua lavra
a contraclava.
Guillaume, IX Duque da Aquitânia e VII Conde de Poitiers (1071-1227)
in Rouxinol do Mundo de Manuel Alegre (selecção e tradução)
nem de mim nem de ninguém,
nem juventude nem amada,
nem outro alguém,
só que andei a trová-lo
dormindo sobre um cavalo.
Não sei a hora em que fui nado,
não sou alegre nem irado,
nem reservado nem estranho,
culpa não tenho,
que deste modo fui fadado
de noite numa montanha.
Amada tenho, não sei quem é:
que nunca a vi, por minha fé;
não fui cortês nem descortês
e não me importa:
que nunca tive normando nem francês
dentro da porta.
Quero-lhe muito e nunca a vi;
e nem favor ou desfavor eu tiro dela;
pouco me importa se não está aqui;
nem sequer presta:
sei de outra mais gentil e que é mais bela,
melhor do que esta.
Não sei sequer onde ela habita,
se na montanha ou na planície;
o mal que ela me fez eu não o disse,
calado estou;
Que ela aqui esteja é uma desdita,
e assim me vou.
Fiz um poema não sei de quê;
e vou mandá-lo para quem
há-de enviá-lo para outrem
a Poitiers,
o qual me enviará de sua lavra
a contraclava.
Guillaume, IX Duque da Aquitânia e VII Conde de Poitiers (1071-1227)
in Rouxinol do Mundo de Manuel Alegre (selecção e tradução)
poesia de verão
a poesia é...
não sei ler poesia. sou tola o suficiente para gostar essencialmente de poemas de amor. talvez seja apenas romântica.
de qualquer forma, depois de uma má experiência com um certo fulano armado em poeta, tinha arredado o género da minha vida.
reconciliei-me. ainda bem. continuo sem saber lê-la mas entre sobressaltos, bocejos e pontos de interrogação, comecei a fazer uma pequenina selecção de poemas de que gosto escolhida de entre a pequeníssima colecção de livros de poesia que possuo e outro delicadamente (deliciosamente) cedido.
uma série para ser desenvolvida nas 4 estações.
não sei ler poesia. sou tola o suficiente para gostar essencialmente de poemas de amor. talvez seja apenas romântica.
de qualquer forma, depois de uma má experiência com um certo fulano armado em poeta, tinha arredado o género da minha vida.
reconciliei-me. ainda bem. continuo sem saber lê-la mas entre sobressaltos, bocejos e pontos de interrogação, comecei a fazer uma pequenina selecção de poemas de que gosto escolhida de entre a pequeníssima colecção de livros de poesia que possuo e outro delicadamente (deliciosamente) cedido.
uma série para ser desenvolvida nas 4 estações.
Segunda-feira, Julho 21, 2008
A preguiça
A alma adora nadar.
Para nadar deitamo-nos de barriga. A alma desencaixa-se, e lá vai. Lá vai a nadar. (Se a sua alma partir quando você estiver de pé, ou sentado, ou de joelhos dobrados, ou de cotovelos dobrados, em cada posição diferente do corpo a alma partirá num andamento e numa forma diferentes; explicarei isso mais tarde).
Fala-se muita vez em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.
Uma data de pessoas têm, assim, uma alma que adora nadar. Chamam.lhes vulgarmente preguiçosas. Quando a alma sai do corpo pela barriga, para nadar, opera-se uma tal libertação de não sei quê, um abandono, um prazer, uma descontracção tão íntima.
A alma vai nadar para o vão da escada, ou para a rua consoante a timidez ou a audácia do homem, pois mantém sempre um fio entre ela e ele, e se esse fio se rompesse (às vezes é muito frágil, mas seria precisa uma força terrível para romper o fio), seria um desastre para ambos (para ela e para ele).
Quando, portanto, se encontra ocupada a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes duma espécie de matéria espiritual, uma espécie de lama, assim como o mercúrio ou como um gás - prazer sem fim.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso também que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois, quem há mais egoísta do que a preguiça?
Ela tem bases que o orgulho não tem.
Mas as pessoas encarniçam-se contra os preguiçosos.
Quando estao deitados, batem-lhes, despejam-lhes água fria na cabeça, e eles devem puxar rapidamente pela alma. Olham-nos então com aquele olhar de ódio, que bem conhecemos, e se observa sobretudo nas crianças.
Henri Michaux in "As Minhas Propriedades" da Fenda (1999)
Hoje passei a ser um bocadinho menos inculta...
Para nadar deitamo-nos de barriga. A alma desencaixa-se, e lá vai. Lá vai a nadar. (Se a sua alma partir quando você estiver de pé, ou sentado, ou de joelhos dobrados, ou de cotovelos dobrados, em cada posição diferente do corpo a alma partirá num andamento e numa forma diferentes; explicarei isso mais tarde).
Fala-se muita vez em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.
Uma data de pessoas têm, assim, uma alma que adora nadar. Chamam.lhes vulgarmente preguiçosas. Quando a alma sai do corpo pela barriga, para nadar, opera-se uma tal libertação de não sei quê, um abandono, um prazer, uma descontracção tão íntima.
A alma vai nadar para o vão da escada, ou para a rua consoante a timidez ou a audácia do homem, pois mantém sempre um fio entre ela e ele, e se esse fio se rompesse (às vezes é muito frágil, mas seria precisa uma força terrível para romper o fio), seria um desastre para ambos (para ela e para ele).
Quando, portanto, se encontra ocupada a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes duma espécie de matéria espiritual, uma espécie de lama, assim como o mercúrio ou como um gás - prazer sem fim.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso também que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois, quem há mais egoísta do que a preguiça?
Ela tem bases que o orgulho não tem.
Mas as pessoas encarniçam-se contra os preguiçosos.
Quando estao deitados, batem-lhes, despejam-lhes água fria na cabeça, e eles devem puxar rapidamente pela alma. Olham-nos então com aquele olhar de ódio, que bem conhecemos, e se observa sobretudo nas crianças.
Henri Michaux in "As Minhas Propriedades" da Fenda (1999)
Hoje passei a ser um bocadinho menos inculta...
Quinta-feira, Julho 17, 2008
me, myself and us
anseio a minha casa e de algum modo a minha solidão.
a minha vista sobre o topo da palmeira republicana: as minhas pernas nuas estendidas no sofá.
o meu silêncio preenchido com o aviso sonoro dos semáforos, as súbitas travagens na passadeira de peões, o autocarro em ponto morto à cor vermelha.
a televisão em constante zapping.
os meus pés descalços no soalho irregular, os meus pés descalços no mármore frio, os meus pés descalços nos mosaicos antiquados.
anseio a minha solidão e a tua companhia. o cheiro a suor masculino, o som do teclado distante. a tua música, a tua arte.
estar sozinha, estares sozinho. estarmos sozinhos juntos.
thinking about other lovers and ending up thinking about you.
a minha vista sobre o topo da palmeira republicana: as minhas pernas nuas estendidas no sofá.
o meu silêncio preenchido com o aviso sonoro dos semáforos, as súbitas travagens na passadeira de peões, o autocarro em ponto morto à cor vermelha.
a televisão em constante zapping.
os meus pés descalços no soalho irregular, os meus pés descalços no mármore frio, os meus pés descalços nos mosaicos antiquados.
anseio a minha solidão e a tua companhia. o cheiro a suor masculino, o som do teclado distante. a tua música, a tua arte.
estar sozinha, estares sozinho. estarmos sozinhos juntos.
thinking about other lovers and ending up thinking about you.
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Quarta-feira, Julho 09, 2008
dark city* sin city**
há alturas em que já não se escolhe porque deixou de haver como e porquê.
teço a teia onde sou aranha e presa.
teço um casulo onde não há escuridão, nem punição, nem luz, nem luxúria.
habito a minha cidade, agora.
* Director: Alex Proyas
** Directors: Frank Miler e Robert Rodriguez baseado na comics de Frank Miller
teço a teia onde sou aranha e presa.
teço um casulo onde não há escuridão, nem punição, nem luz, nem luxúria.
habito a minha cidade, agora.
* Director: Alex Proyas
** Directors: Frank Miler e Robert Rodriguez baseado na comics de Frank Miller
Terça-feira, Julho 08, 2008
Segunda-feira, Julho 07, 2008
Ó para mim no youtube!
Pois é, mas o mais importante é a participação do SOS RACISMO nestes eventos e os imigrantes e as comunidades de minorias étnicas andarem a mexer.
Sexta-feira, Junho 27, 2008
Quinta-feira, Junho 12, 2008
todas as perguntas
merecem resposta. porque eu estou precisamente nas palavras. a minha pele, a minha carne, a minha língua, a minha voz, o meu pensamento, estão nas palavras. ditas.
Domingo, Junho 01, 2008
afinal sempre percebi qualquer coisa das aulas de filosofia
What philosophy do you follow? (v1.03) created with QuizFarm.com |
| You scored as Existentialism Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life. |
Sábado, Maio 24, 2008
Terça-feira, Maio 06, 2008
Enganos
no outro dia enganei-me.
a música que Scarlett Johansson e Bil Murry cantam no karaoke japonês em "Lost in Translation" é a canção de Brian Ferry "More than This"
faz sentido. é uma música desesperançada de amor.
I could feel at the time
There was no way of knowing
Fallen leaves in the night
Who can say where they´re blowing
As free as the wind
And hopefully learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this - there is nothing
More than this - tell me one thing
More than this - there is nothing
It was fun for a while
There was no way of knowing
Like dream in the night
Who can say where we´re going
No care in the world
Maybe i´m learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this - there is nothing
More than this - tell me one thing
More than this - there is nothing
"Everybody's gotta learn sometime" dos Erasure é do "Eternal Sunshine of the Spotless Mind".
também faz sentido. havia mais esperança nesse filme.
a música que Scarlett Johansson e Bil Murry cantam no karaoke japonês em "Lost in Translation" é a canção de Brian Ferry "More than This"
faz sentido. é uma música desesperançada de amor.
I could feel at the time
There was no way of knowing
Fallen leaves in the night
Who can say where they´re blowing
As free as the wind
And hopefully learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this - there is nothing
More than this - tell me one thing
More than this - there is nothing
It was fun for a while
There was no way of knowing
Like dream in the night
Who can say where we´re going
No care in the world
Maybe i´m learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this - there is nothing
More than this - tell me one thing
More than this - there is nothing
"Everybody's gotta learn sometime" dos Erasure é do "Eternal Sunshine of the Spotless Mind".
também faz sentido. havia mais esperança nesse filme.
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Segunda-feira, Dezembro 10, 2007
Quinta-feira, Dezembro 06, 2007
Domingo, Dezembro 02, 2007
365
Sem ti.
O inimaginável vivido.
365
Sem mim. Sem nós. Sem ti em mim.
365
Eu que eu sou cada vez mais tua, cada vez mais tu, cada vez mais nós. Sem fim à vista.
O inimaginável vivido.
365
Sem mim. Sem nós. Sem ti em mim.
365
Eu que eu sou cada vez mais tua, cada vez mais tu, cada vez mais nós. Sem fim à vista.
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Propostas para nova marca gráfica SOS RACISMO
Pois é, o SOS RACISMO realizou uma parceria com a ESAP (Escola Superior Artística do Porto) durante o ano lectivo 2006/2007 e os resultados estão à vista. Esta parceria teve como objectivo a criação de propostas de nova marca gráfica para o SOS RACISMO bem como a criação de novos postais e t-shirts incidindo em temáticas específicas do nosso trabalho.
A pertinência da mudança ou não de imagem vai ser discutida na Assembleia Geral do SOS que terá lugar no dia 7 de Outubro (integrando a Formação Anual - Tocha)
Aqui podem ser apreciados os trabalhos relativos ao novo logótipo e aqui as propostas gráficas para postais e t-shirts.
Devemos agradecer à Prof.ª Suzana Dias e ao Prof. Paulo Fernandes que orientaram os alunos de 2º ano da turma Tecnologias Aplicadas.
A pertinência da mudança ou não de imagem vai ser discutida na Assembleia Geral do SOS que terá lugar no dia 7 de Outubro (integrando a Formação Anual - Tocha)
Aqui podem ser apreciados os trabalhos relativos ao novo logótipo e aqui as propostas gráficas para postais e t-shirts.
Devemos agradecer à Prof.ª Suzana Dias e ao Prof. Paulo Fernandes que orientaram os alunos de 2º ano da turma Tecnologias Aplicadas.
Quarta-feira, Agosto 15, 2007
cigarrette
meu amor... se te fumo como cigarros, perdoa-me.
necessito-te como uma dependência.
tu surges-me como um vício e, sinto-te a falta, ressacando.
os teus olhos verdes, o teu nariz perfeito, os teus pêlos grisalhos, as tuas pernas finas, a tua cintura estreita.
perdoa-me meu amor.
perdoa-me.
só tu me conheces, só tu me entendes, só tu me amas.
só a ti amo.
amo-te.
necessito-te como uma dependência.
tu surges-me como um vício e, sinto-te a falta, ressacando.
os teus olhos verdes, o teu nariz perfeito, os teus pêlos grisalhos, as tuas pernas finas, a tua cintura estreita.
perdoa-me meu amor.
perdoa-me.
só tu me conheces, só tu me entendes, só tu me amas.
só a ti amo.
amo-te.
Segunda-feira, Maio 28, 2007
tattoo art
o teu nome esta gravado em mim para sempre. gravei-te nos meus olhos quando te vi: camisa cinzenta, casaso de couro preto, gothic fashion show - queres ser minha? - e a tua mão à roda da minha cintura sem pressas e aquela dureza contraida dos músculos, da mais dura erecção que alguma vez vi, da boca que escorria água sobre o meu corpo e me deixou totalmente baralhada. gravei-te no meu coração quando me olhaste através do mediterrâneo e estás gravado sempre nos meus pensamentos, todos os momentos, todos os dias da minha vida sem ti.
hei-de gravar-te na carne para que me doa, talvez se me doer eu possa sentir-te e é impossível descrever a falta que sentir-te me faz.
hei-de gravar-te na carne para que me doa, talvez se me doer eu possa sentir-te e é impossível descrever a falta que sentir-te me faz.
Quarta-feira, Maio 23, 2007
os tempos pequeninos não se escrevem nem dão para escrever.
nos tempos grandes dos nossos silêncios as ideias crescem como ervas daninhas. as imagens brotam como flores.
a urgência dos agarrar não existe. quando morremos restam uma série de papeis inutéis que estorvam quem deixámos para trás. o espaço virtual nesse sentido, pelo menos, não ocupa espaço. encherei de lixo, de 0s e 1s, todo o espaço virtual. quando morrer ninguém terá de chatear com isso. poderei rele-los vezes sem conta e chorar como da primeira vez sem causar dano à floresta.
nos tempos grandes dos nossos silêncios as ideias crescem como ervas daninhas. as imagens brotam como flores.
a urgência dos agarrar não existe. quando morremos restam uma série de papeis inutéis que estorvam quem deixámos para trás. o espaço virtual nesse sentido, pelo menos, não ocupa espaço. encherei de lixo, de 0s e 1s, todo o espaço virtual. quando morrer ninguém terá de chatear com isso. poderei rele-los vezes sem conta e chorar como da primeira vez sem causar dano à floresta.
Segunda-feira, Maio 14, 2007
nas contas do deve e do haver...
há quem goste de dar para trás e os que apenas gostam de dar...
para o bem e para o mal, pertenço ao segundo grupo.
para o bem e para o mal, pertenço ao segundo grupo.
Quinta-feira, Março 29, 2007
"old quote" (maio 2003?)
"Olá *******,
A sua intromissão é mais que bem vinda. Eu, alias, não me tinha ainda esquecido que havíamos combinado comunicar desta forma, mas preciso de mais calma do que aquela que tenho tido para o fazer.
Ontem à tarde (domingo depois de uma festinha infantil) tive quase quase para esticar o meu tempo aqui no escritório e escrever-lhe... ainda bem que não o fiz. Seria certamente diferente.
Tenho medo de tornar muito confuso (se não fastidioso) o relato dos últimos acontecimentos. Acontecimentos(?) Bom...
Isto está complicado... não me estou a conseguir organizar... pus a tocar "pelo dia dentro" - Camané, para ver se a disposição melancólica do fado me predispõe.
"quem pensa muito não tem, horas tranquilas, serenas..."
A primeira música chama-se "filosofia" e apanhei-lhe agora esta frase... não sou nada original nas minhas reflexões, não é verdade? Já outros as publicam em forma de fado canção :/
Simplificando:
Vim de Lisboa com disposição para um "vai-ou-racha" qualquer, um "agora-ou-nunca" que talvez na parte do cérebro mais recôndita, aquela que costumo chamar a parte de traz, já soubesse que não ia acontecer. Estarei eu fadada para limbos e pastosidades? Será que o que me falta na verdade é coragem? Para mudar ou para partir? Sentiria eu demasiado a falta de um corpo quente dentro de casa, dentro da cama? Serei eu pouco inteligente para mudar o curso das coisas e manter esse conforto térmico?
Sei lá...
O A******, nalgumas conversas que tivemos, assume uma nova postura. Afirma apenas que agora a nossa relação se rege p'las minhas regras (?) que a mentira e a "traição" são válidas...
No curso destas conversas só lhe perguntei duas coisas... Como é que é que ele "sabia" ou "descobria" tudo o que se passava na minha vida... que a teoria da premonição, além de ser pouquíssimo válida / fiável, era também uma carga horrível de se carregar... (já não me lembro se abordei isto com a J***). Expliquei-lhe que estava perfeitamente disposta a aceitar o facto de ele ter podido ler mails/apontamentos/agendas/diários de bordo... enfim...A segunda coisa que lhe perguntei era se então, e dado a nova "postura", ele estaria enrolado com alguém... eventualmente em Lisboa (?). Que raio de pergunta absurda! Mas a dúvida depois de instalada é um fogo (nisso compreendo o A******) e a ideia de que eu poderia estar eventualmente a subsidiar ($$$) idas a Lisboa que tinham como objecto outra mulher, estava (está?) a deixar-me louca.
Ele negou... com aqueles olhos vazios de tudo... olhos frios e cínicos (acho que também fazem parte da nova postura).
(Parêntesis no relato)
Já por várias vezes expliquei ao A****** a minha visão sobre a nossa (e todas, no fundo) relação. Prefiro a humanidade do erro, do arrependimento, da vergonha, da histeria, que o cinismo/hipocrisia do calculismo. A ideia é vibrar!! Vibrar com a alegria, com os desgostos, com a ida ao supermercado, com a limpeza da casa, com a contabilidade dos tostões, vibrar com a presença do outro, vibrar com a sua ausência. Sentir! E ele quer extirpar a nossa relação de sentimento para não sentir a dor...
Agora que o escrevo, a coisa parece fazer sentido... serei eu a insensível? Evitar a dor parece-me perfeitamente razoável... De qualquer forma será que é obrigatório amputar tudo, para amputar parte? Talvez...
(Fim de parêntesis)
Posto isto, lá me induzi a um estado mais ou menos simpático de relacionamento, até que... um dia (e desta vez involuntariamente) me deparo com um ficheiro informático de nome suspeito (ok ok nos documentos dele, mas esquecidos abertos).
Abri (agora começamos a raiar o conto policial) e qual não é o meu espanto quando me deparo com um documento de texto, onde todas, absolutamente todas as minhas acções no computador estavam registadas. Desde os mails que escrevi, conversas em salas de chat ou messenger e engenhos semelhantes, até mesmo qualquer texto profissional (sendo que uso o mesmo computador para trabalho e lazer).
Escusado será dizer... tudo a que tenho acesso, através de password, também ele passou a ter... claro que há muito que evitava escrever qualquer coisa por mail... nunca fui muito de esconder "passes" e por uma questão de orgulho também não as mudei mesmo depois de suspeitar que o meu e-mail poderia estar a ser violado.
Começou novamente a caça! Caça de informações. Caça de revelações. Caça de conversas e rendições.
Não conseguia compreender sequer com que artes o tinha feito. Não me contive muito, falei-lhe logo do assunto. Mais olhares cínicos mais sorrisos hipócritas. A nova postura strikes again! A mentira agora é válida... Só o facto de se conseguir registar este tipo de informação é mau, mas eu pedi-lhe imenso que me dissesse como soube determinadas coisas e ele mentia de cada vez, dizia que "sentia"... e que nunca leria nada "Tu sabes que eu não minto" como se me atirasse à cara as mentiras que disse. E a moral dele desmorona.
E o estranho é que não desmorona... como se ele tivesse uma força muito maior que a minha... Raios me parta! Raios o parta!
Mais tarde descobri o "bicho". Um programeca anunciado na internet como a cura de todos os males... "is your husband cybercheating? Are your childrean visiting porno sites?". Que decadência!
De qualquer forma esta conversa pareceu-me um bom começo, um alivio, como a J*** me disse... só a verdade remedeia.
Agora via-me livre daquele olho sempre agarrado às minhas costas.
(Parêntesis - talvez relato repetido)
Quando eu era pequena estava proibida de fazer cambalhotas nos "ferros" (aqueles engenhos de aço construídos nos recreios de tantas escolas). "Podes partir a cabeça! E tudo o que tu fizeres eu sei!". Só muitos anos depois, quando já não tinha tanto gozo, aprendi a rodar sobre os "ferros" mas durante esses anos e outros anos senti o olho cravado nas minhas acções. Talvez mesmo com 6/7 anos acreditasse que um "espião-homem" estava escondido entre os arbustos que mediavam a escola e a casa... mas não sei se o conceito abstracto, desencarnado, não é muito mais assustador.
(Fim de parêntesis)
Brinquei até com o assunto, fazia piadas, de qualquer forma não vale a pena se não soubermos rir de nós e das nossas fraquezas. Disse-me que há muito tempo que aqueles ficheiros deixaram de o interessar. Tinha-se resignado a não saber nada sobre mim, não queria fazer-me perguntas e não lhe interessava nada que eu fizesse longe dele... bom ou mau, grandioso ou desprovido de significado. Não queria saber - ponto final.
Aqui começa uma pequenina luta (minha é certo) eu quero ser amada sempre, na presença e na ausência e não suporto que ele se mostre incomodado até, quando lhe relato o meu quotidiano como se esperasse que essa partilha seja só um chorrilhos de mentiras para encobrir todos os actos iníquos do dia.
Depois chegou a minha própria resignação... senti-me compreender melhor a sua dor, disposta a "perdoar" também as suas falhas, a esquecer o triste incidente de ter um olho informático escondido num disco rígido, perceber que o facto de ele ensaiar ciclicamente cartas de despedida em que apenas fala do amor que por mim sente, onde apenas deseja o fim das disputas é uma espécie de garantia de que ele sente! está cansado, eu estou cansada, mas não quero desistir e ele também não o deve desejar ou não estaria aqui.
Dois ou três dias depois de revelado o "espião-máquina" tinha-me disposto a ser fantástica... a tornar tudo brilhante, cobri-lo com carinhos cicatrizantes e ser uma amante activa e disponível (porque às vezes também disso se queixa).
Mas o espinho financeiro que está atravessado nas nossas gargantas ainda nem sequer tinha sido aflorado. (Cá estou eu a sentir-me foleira de o trazer à baila). E para o ser, terei de tornar-me redondamente minuciosa e chata - nesta altura pode interromper a leitura e ir fazer qualquer coisa mais urgente.
Contamos agora:
Palavras - 1339
Caracteres (incl. espaços) - 7911
Caracteres (excl. espaços) - 6606
Parágrafos - 37
Já há alguns dias que sei que tenho a conta da empresa a zeros, e quando digo zeros, digo absolutamente zero escudos (cêntimos, euros, libras esterlinas - nada) a minha conta não estava nada famosa (e com duas rendas de casa em atraso) o que piorou com algumas compras que tive de fazer para a Mad Science e um providencial bloqueamento do carro (30 euros de multa logo ali).
Ontem ao final da tarde, quando cheguei (agora pensando melhor talvez devesse ter esticado cá a tarde a escrever...) começamos a pensar na refeição da noite. "Vamos à casa da tua mãe? Vamos à casa do meu avô?". O A****** tinha trabalhado na noite anterior... e depois de saldada parte da dívida que ele faz questão de cultivar com o café em baixo de casa, sobravam-lhe pouco mais que 10 euros. Óptimo! A minha sugestão é vamos ao supermercado e ficamos com algumas coisas para as próximas refeições... quando chegarmos arrumamos o resto das divisões da casa (agora que pudemos utilizar o aspirador porque se pagou a conta da luz). Parecia-me perfeito.
A contragosto e de semblante carregado o A****** lá foi e a conversa baseou-se na escolha entre bifes de vitela ou iscas de fígado, chegou-se a compromisso e tudo me parecia de qualquer forma relativamente aceitável naquele fim de tarde. Claro que fiz questão que ele pagasse a conta do supermercado. Com um engolir em seco lá se foram os (últimos) 10 euros de monsieur.
O jantar parecia ter amenizado os espíritos... depois de comer senti urgente necessidade de fumar. Fumar. Vicio que ataca ambos de igual forma... para não dizer... bem, pouco interessa.
Na carteira tinha 5 euros, no bolso pouco mais que 1. Pedi-lhe naturalmente (e porque sabia que lhe restavam ainda algumas moedas) que me desse um euro para completar o meu... desceria e compraria cigarros para ambos.
"Não tenho moedas". Ri-me, brinquei com ele...sabia que sim. Perguntei-lhe então em voz doce de mimo se ele não tinha então dois ou três cigarrinhos escondidos para uso pessoal em alturas de grande urgência como por vezes o faz. "Não".
Irrito-me. Parece-me um bocado estúpido. Porque não me dá ele o que lhe peço... ele tb fuma... ele tb fumará qualquer cigarro que eu compre. Penso nos cinco euros da carteira e no deposito vazio do carro - raios eu preciso do carro para trabalhar! Falta uma semana inteira para o fim do mês. Não vou poder receber o meu salário da MS. A mesada chegará providencial... mas! Enquanto isso ele clama que já "deu" todo o seu dinheiro. Deu!
Tudo começa a amargar, não sei descrever discussões, se calhar não interessa nada.
Preparava-me para me borrifar no deposito do carro e ir buscar aquilo que naquele momento me acalmaria a mente quando surge o argumento de que ele ainda tinha algumas (poucas bem certo) moedas mas que não poderia dispensa-las porque na terça feira começaria a trabalhar na feira do livro e estando todo o dia fora de casa não teria dinheiro para comer ou comprar cigarros (o que leva tb a pensar se não tivesse que estar obrigatoriamente afastado de mim se teria essa preocupação). Eu sei que talvez pudesse ter ficado contente com aquele acesso de sensatez, teria ficado certamente se não o soubesse pouco disposto a fazer um pacto comigo, do género, nenhum fuma até haver dinheiro... e se também não soubesse que ele iria à primeira oportunidade comprar fiado um maço no café... ou seja, o dinheiro que ganhar na feira vai direito para pagar apenas uma divida acumulada num estabelecimento que só vende artigos supérfluos.
Egoísta! Mil vezes egoísta! Quando é que ele se preocupa se o dinheiro que eu gasto com ele, é o meu último? Não saberá ele porventura que muitas vezes também não sei se terei dinheiro para a semana seguinte, para o maço seguinte, para a refeição seguinte, para o deposito seguinte. Eu apenas tenho artes de me endividar sem perder tanto a face. Recorro à conta da empresa, à conta dos não facturados, ao dinheiro do curso de história, no fundo no fundo sempre dependente de uns pais que às tantas preferem nem saber o que eu faço ao dinheiro...
Atiro-lhe à cara todas as despesas que ele e a nossa casa me causam. Desejava ardentemente que as minhas palavras lhe causassem algum arrependimento, genuíno e regenerador, recheado de promessas ou quaisquer outras coisas que afastassem os pensamentos que me enchem a cabeça nessas alturas. Pensamentos resumidos num só. Não me deixará ele por causa de um conforto que não é térmico mas apenas financeiro?
Em vez disso apenas uma explosão. Colérica. Feroz. Violenta. Feérica. Explosão de olhos arregalados e gritos de dentes cerrados. De mãos levantadas em forma de bofetada. De murros na mesa. De palavras ditas silaba a silaba. O que é que tu queres? O que é que tu queres? O que é que tu queres mais?
Fico sempre espantada... fico sempre sinceramente espantada. Espantadas as lágrimas que literalmente me saltam dos olhos. Espantada a boca aberta. E espantado o coração que se sobressalta de um quase-medo físico.
Somamos à anterior contabilização:
Palavras - 903
Caracteres (incl. espaços) - 4341
Caracteres (excl. espaços) - 5232
Parágrafos - 15
Fui comprar cigarros.
Deitados mais tarde e apaziguado o barulho aninhei-me nele e perguntei-lhe se ele percebia que tinha sido violento... voz de choro e de pós baba-e-ranho a pedir mimos e senão uma resposta positiva ao menos um abraço forte que sugere, áquele que pergunta, sempre um sim e ao outro parece sempre uma boa forma de fugir à questão. Nem isso. Apenas um impaciente "Não, J****!" em voz a subir de tom depois de uns imperceptiveis acenos negativos de cabeça.
De facto, "Por vezes é necessário que tudo mude, para que tudo possa voltar a ficar na mesma"
Intrometa-se,
um beijo,j*****"
A sua intromissão é mais que bem vinda. Eu, alias, não me tinha ainda esquecido que havíamos combinado comunicar desta forma, mas preciso de mais calma do que aquela que tenho tido para o fazer.
Ontem à tarde (domingo depois de uma festinha infantil) tive quase quase para esticar o meu tempo aqui no escritório e escrever-lhe... ainda bem que não o fiz. Seria certamente diferente.
Tenho medo de tornar muito confuso (se não fastidioso) o relato dos últimos acontecimentos. Acontecimentos(?) Bom...
Isto está complicado... não me estou a conseguir organizar... pus a tocar "pelo dia dentro" - Camané, para ver se a disposição melancólica do fado me predispõe.
"quem pensa muito não tem, horas tranquilas, serenas..."
A primeira música chama-se "filosofia" e apanhei-lhe agora esta frase... não sou nada original nas minhas reflexões, não é verdade? Já outros as publicam em forma de fado canção :/
Simplificando:
Vim de Lisboa com disposição para um "vai-ou-racha" qualquer, um "agora-ou-nunca" que talvez na parte do cérebro mais recôndita, aquela que costumo chamar a parte de traz, já soubesse que não ia acontecer. Estarei eu fadada para limbos e pastosidades? Será que o que me falta na verdade é coragem? Para mudar ou para partir? Sentiria eu demasiado a falta de um corpo quente dentro de casa, dentro da cama? Serei eu pouco inteligente para mudar o curso das coisas e manter esse conforto térmico?
Sei lá...
O A******, nalgumas conversas que tivemos, assume uma nova postura. Afirma apenas que agora a nossa relação se rege p'las minhas regras (?) que a mentira e a "traição" são válidas...
No curso destas conversas só lhe perguntei duas coisas... Como é que é que ele "sabia" ou "descobria" tudo o que se passava na minha vida... que a teoria da premonição, além de ser pouquíssimo válida / fiável, era também uma carga horrível de se carregar... (já não me lembro se abordei isto com a J***). Expliquei-lhe que estava perfeitamente disposta a aceitar o facto de ele ter podido ler mails/apontamentos/agendas/diários de bordo... enfim...A segunda coisa que lhe perguntei era se então, e dado a nova "postura", ele estaria enrolado com alguém... eventualmente em Lisboa (?). Que raio de pergunta absurda! Mas a dúvida depois de instalada é um fogo (nisso compreendo o A******) e a ideia de que eu poderia estar eventualmente a subsidiar ($$$) idas a Lisboa que tinham como objecto outra mulher, estava (está?) a deixar-me louca.
Ele negou... com aqueles olhos vazios de tudo... olhos frios e cínicos (acho que também fazem parte da nova postura).
(Parêntesis no relato)
Já por várias vezes expliquei ao A****** a minha visão sobre a nossa (e todas, no fundo) relação. Prefiro a humanidade do erro, do arrependimento, da vergonha, da histeria, que o cinismo/hipocrisia do calculismo. A ideia é vibrar!! Vibrar com a alegria, com os desgostos, com a ida ao supermercado, com a limpeza da casa, com a contabilidade dos tostões, vibrar com a presença do outro, vibrar com a sua ausência. Sentir! E ele quer extirpar a nossa relação de sentimento para não sentir a dor...
Agora que o escrevo, a coisa parece fazer sentido... serei eu a insensível? Evitar a dor parece-me perfeitamente razoável... De qualquer forma será que é obrigatório amputar tudo, para amputar parte? Talvez...
(Fim de parêntesis)
Posto isto, lá me induzi a um estado mais ou menos simpático de relacionamento, até que... um dia (e desta vez involuntariamente) me deparo com um ficheiro informático de nome suspeito (ok ok nos documentos dele, mas esquecidos abertos).
Abri (agora começamos a raiar o conto policial) e qual não é o meu espanto quando me deparo com um documento de texto, onde todas, absolutamente todas as minhas acções no computador estavam registadas. Desde os mails que escrevi, conversas em salas de chat ou messenger e engenhos semelhantes, até mesmo qualquer texto profissional (sendo que uso o mesmo computador para trabalho e lazer).
Escusado será dizer... tudo a que tenho acesso, através de password, também ele passou a ter... claro que há muito que evitava escrever qualquer coisa por mail... nunca fui muito de esconder "passes" e por uma questão de orgulho também não as mudei mesmo depois de suspeitar que o meu e-mail poderia estar a ser violado.
Começou novamente a caça! Caça de informações. Caça de revelações. Caça de conversas e rendições.
Não conseguia compreender sequer com que artes o tinha feito. Não me contive muito, falei-lhe logo do assunto. Mais olhares cínicos mais sorrisos hipócritas. A nova postura strikes again! A mentira agora é válida... Só o facto de se conseguir registar este tipo de informação é mau, mas eu pedi-lhe imenso que me dissesse como soube determinadas coisas e ele mentia de cada vez, dizia que "sentia"... e que nunca leria nada "Tu sabes que eu não minto" como se me atirasse à cara as mentiras que disse. E a moral dele desmorona.
E o estranho é que não desmorona... como se ele tivesse uma força muito maior que a minha... Raios me parta! Raios o parta!
Mais tarde descobri o "bicho". Um programeca anunciado na internet como a cura de todos os males... "is your husband cybercheating? Are your childrean visiting porno sites?". Que decadência!
De qualquer forma esta conversa pareceu-me um bom começo, um alivio, como a J*** me disse... só a verdade remedeia.
Agora via-me livre daquele olho sempre agarrado às minhas costas.
(Parêntesis - talvez relato repetido)
Quando eu era pequena estava proibida de fazer cambalhotas nos "ferros" (aqueles engenhos de aço construídos nos recreios de tantas escolas). "Podes partir a cabeça! E tudo o que tu fizeres eu sei!". Só muitos anos depois, quando já não tinha tanto gozo, aprendi a rodar sobre os "ferros" mas durante esses anos e outros anos senti o olho cravado nas minhas acções. Talvez mesmo com 6/7 anos acreditasse que um "espião-homem" estava escondido entre os arbustos que mediavam a escola e a casa... mas não sei se o conceito abstracto, desencarnado, não é muito mais assustador.
(Fim de parêntesis)
Brinquei até com o assunto, fazia piadas, de qualquer forma não vale a pena se não soubermos rir de nós e das nossas fraquezas. Disse-me que há muito tempo que aqueles ficheiros deixaram de o interessar. Tinha-se resignado a não saber nada sobre mim, não queria fazer-me perguntas e não lhe interessava nada que eu fizesse longe dele... bom ou mau, grandioso ou desprovido de significado. Não queria saber - ponto final.
Aqui começa uma pequenina luta (minha é certo) eu quero ser amada sempre, na presença e na ausência e não suporto que ele se mostre incomodado até, quando lhe relato o meu quotidiano como se esperasse que essa partilha seja só um chorrilhos de mentiras para encobrir todos os actos iníquos do dia.
Depois chegou a minha própria resignação... senti-me compreender melhor a sua dor, disposta a "perdoar" também as suas falhas, a esquecer o triste incidente de ter um olho informático escondido num disco rígido, perceber que o facto de ele ensaiar ciclicamente cartas de despedida em que apenas fala do amor que por mim sente, onde apenas deseja o fim das disputas é uma espécie de garantia de que ele sente! está cansado, eu estou cansada, mas não quero desistir e ele também não o deve desejar ou não estaria aqui.
Dois ou três dias depois de revelado o "espião-máquina" tinha-me disposto a ser fantástica... a tornar tudo brilhante, cobri-lo com carinhos cicatrizantes e ser uma amante activa e disponível (porque às vezes também disso se queixa).
Mas o espinho financeiro que está atravessado nas nossas gargantas ainda nem sequer tinha sido aflorado. (Cá estou eu a sentir-me foleira de o trazer à baila). E para o ser, terei de tornar-me redondamente minuciosa e chata - nesta altura pode interromper a leitura e ir fazer qualquer coisa mais urgente.
Contamos agora:
Palavras - 1339
Caracteres (incl. espaços) - 7911
Caracteres (excl. espaços) - 6606
Parágrafos - 37
Já há alguns dias que sei que tenho a conta da empresa a zeros, e quando digo zeros, digo absolutamente zero escudos (cêntimos, euros, libras esterlinas - nada) a minha conta não estava nada famosa (e com duas rendas de casa em atraso) o que piorou com algumas compras que tive de fazer para a Mad Science e um providencial bloqueamento do carro (30 euros de multa logo ali).
Ontem ao final da tarde, quando cheguei (agora pensando melhor talvez devesse ter esticado cá a tarde a escrever...) começamos a pensar na refeição da noite. "Vamos à casa da tua mãe? Vamos à casa do meu avô?". O A****** tinha trabalhado na noite anterior... e depois de saldada parte da dívida que ele faz questão de cultivar com o café em baixo de casa, sobravam-lhe pouco mais que 10 euros. Óptimo! A minha sugestão é vamos ao supermercado e ficamos com algumas coisas para as próximas refeições... quando chegarmos arrumamos o resto das divisões da casa (agora que pudemos utilizar o aspirador porque se pagou a conta da luz). Parecia-me perfeito.
A contragosto e de semblante carregado o A****** lá foi e a conversa baseou-se na escolha entre bifes de vitela ou iscas de fígado, chegou-se a compromisso e tudo me parecia de qualquer forma relativamente aceitável naquele fim de tarde. Claro que fiz questão que ele pagasse a conta do supermercado. Com um engolir em seco lá se foram os (últimos) 10 euros de monsieur.
O jantar parecia ter amenizado os espíritos... depois de comer senti urgente necessidade de fumar. Fumar. Vicio que ataca ambos de igual forma... para não dizer... bem, pouco interessa.
Na carteira tinha 5 euros, no bolso pouco mais que 1. Pedi-lhe naturalmente (e porque sabia que lhe restavam ainda algumas moedas) que me desse um euro para completar o meu... desceria e compraria cigarros para ambos.
"Não tenho moedas". Ri-me, brinquei com ele...sabia que sim. Perguntei-lhe então em voz doce de mimo se ele não tinha então dois ou três cigarrinhos escondidos para uso pessoal em alturas de grande urgência como por vezes o faz. "Não".
Irrito-me. Parece-me um bocado estúpido. Porque não me dá ele o que lhe peço... ele tb fuma... ele tb fumará qualquer cigarro que eu compre. Penso nos cinco euros da carteira e no deposito vazio do carro - raios eu preciso do carro para trabalhar! Falta uma semana inteira para o fim do mês. Não vou poder receber o meu salário da MS. A mesada chegará providencial... mas! Enquanto isso ele clama que já "deu" todo o seu dinheiro. Deu!
Tudo começa a amargar, não sei descrever discussões, se calhar não interessa nada.
Preparava-me para me borrifar no deposito do carro e ir buscar aquilo que naquele momento me acalmaria a mente quando surge o argumento de que ele ainda tinha algumas (poucas bem certo) moedas mas que não poderia dispensa-las porque na terça feira começaria a trabalhar na feira do livro e estando todo o dia fora de casa não teria dinheiro para comer ou comprar cigarros (o que leva tb a pensar se não tivesse que estar obrigatoriamente afastado de mim se teria essa preocupação). Eu sei que talvez pudesse ter ficado contente com aquele acesso de sensatez, teria ficado certamente se não o soubesse pouco disposto a fazer um pacto comigo, do género, nenhum fuma até haver dinheiro... e se também não soubesse que ele iria à primeira oportunidade comprar fiado um maço no café... ou seja, o dinheiro que ganhar na feira vai direito para pagar apenas uma divida acumulada num estabelecimento que só vende artigos supérfluos.
Egoísta! Mil vezes egoísta! Quando é que ele se preocupa se o dinheiro que eu gasto com ele, é o meu último? Não saberá ele porventura que muitas vezes também não sei se terei dinheiro para a semana seguinte, para o maço seguinte, para a refeição seguinte, para o deposito seguinte. Eu apenas tenho artes de me endividar sem perder tanto a face. Recorro à conta da empresa, à conta dos não facturados, ao dinheiro do curso de história, no fundo no fundo sempre dependente de uns pais que às tantas preferem nem saber o que eu faço ao dinheiro...
Atiro-lhe à cara todas as despesas que ele e a nossa casa me causam. Desejava ardentemente que as minhas palavras lhe causassem algum arrependimento, genuíno e regenerador, recheado de promessas ou quaisquer outras coisas que afastassem os pensamentos que me enchem a cabeça nessas alturas. Pensamentos resumidos num só. Não me deixará ele por causa de um conforto que não é térmico mas apenas financeiro?
Em vez disso apenas uma explosão. Colérica. Feroz. Violenta. Feérica. Explosão de olhos arregalados e gritos de dentes cerrados. De mãos levantadas em forma de bofetada. De murros na mesa. De palavras ditas silaba a silaba. O que é que tu queres? O que é que tu queres? O que é que tu queres mais?
Fico sempre espantada... fico sempre sinceramente espantada. Espantadas as lágrimas que literalmente me saltam dos olhos. Espantada a boca aberta. E espantado o coração que se sobressalta de um quase-medo físico.
Somamos à anterior contabilização:
Palavras - 903
Caracteres (incl. espaços) - 4341
Caracteres (excl. espaços) - 5232
Parágrafos - 15
Fui comprar cigarros.
Deitados mais tarde e apaziguado o barulho aninhei-me nele e perguntei-lhe se ele percebia que tinha sido violento... voz de choro e de pós baba-e-ranho a pedir mimos e senão uma resposta positiva ao menos um abraço forte que sugere, áquele que pergunta, sempre um sim e ao outro parece sempre uma boa forma de fugir à questão. Nem isso. Apenas um impaciente "Não, J****!" em voz a subir de tom depois de uns imperceptiveis acenos negativos de cabeça.
De facto, "Por vezes é necessário que tudo mude, para que tudo possa voltar a ficar na mesma"
Intrometa-se,
um beijo,j*****"
Domingo, Julho 16, 2006
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(Olivier Besancenot)









